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AntiCast#5262h 15min

E que tal esse primeiro turno, hein? Socorro.

Neste episódio, Ivan Mizanzuk, João Carvalho e Tupa Guerra conversam sobre o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, realizado neste domingo, 4 de outubro.

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Neste episódio, Ivan Mizanzuk, João Carvalho e Tupa Guerra conversam sobre o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, realizado neste domingo, 4 de outubro. O que as urnas dizem sobre o Brasil? Como interpretar o cenário envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro? E o que esperar daqui para a frente? Uma conversa para tentar organizar as ideias depois da votação. Socorro.

Ao vivo nesta segunda-feira, 5 de outubro, às 22h (horário de Brasília), no YouTube do AntiCast.


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Ivan

Olá, boa noite a todos e todas, desesperados e desesperadas. Estamos aqui, né, mais uma vez resgatando o AntiCast das profundezas, que pra quem não sabe, já é o terceiro programa desde a sua reencarnação. Só que a gente tinha decidido que ia falar sobre uma coisa mais leve, que era Black Mirror, e daí o mundo, né, do Brasil decidiu nos deixar atentos. Então daí a gente tinha live hoje, daí meio que rolou um clima tipo: "Ai, galera, não tô muito bem pra gravar hoje", tal. Daí eu disse: "Pois eu tô. E eu vou chamar gente que é ruim pra gravar comigo também". Então, chamei aqui os meus velhos companheiros de sempre, né?

Querida Tupá Guerra, saudades de ti. [Tupá: Olá.] Como é que cê tá, querida? Tudo bem?

Tupá

Tudo certo. Adorei que a sua determinação de fazer o AntiCast sem política durou três episódios. Parabéns.

Ivan

Três episódios, exatamente. Né? Eu já estou convencidíssimo que eu não posso ter o AntiCast aberto porque acontece isso, entende? Então- [Tupá: Aham.] Mas tudo bem, né? Estamos aqui, então- [Tupá: Tamo aí.] Então Tupá Guerra-

Tupá

É que você começou com Black Mirror, que é uma péssima ideia. Eu sou- [Ivan: Ahhh...] hater de Black Mirror.

Ivan

Ah, não, mas daí você tá errada, eu não posso fazer nada, né? Mas enfim. Estamos aqui com o nosso querido João Carvalho, que desde que começaram a falar sobre "ai, volta o AntiCast", não sei o quê, "mas tem que chamar o João, tem que chamar o João, tem que chamar o João e a Tupá, tem que chamar o João". Mas o João é o principal. Então João- [Tupá: Sim.] Você no AntiCast é o sonho de muita gente que tá aqui hoje. Então, o que que você fala pra esses fãs que queriam tanto ver você falando comigo de novo?

João

Primeiro, né, o "olá, jovens" pra todos os jovens que tão aqui com a gente. Fico muito feliz de tá aqui de volta. Esse é o meu AntiCast número 580, né? E é o- [Ivan: Provável.] 506 do AntiCast. Então me sinto já, né, bastante em casa. Tava comentando com o menino Ivan aqui na coxia, que a gente tem essa leve tendência de se encontrar quando o Brasil tende ao fascismo. É foda.

Ivan

Exato. É foda. [Tupá: Uhum.] Uhum. [Tupá: É.] É, inclusive, né, acho que é bom lembrar pra passar um pouquinho da cronologia do AntiCast nesse ponto, que o famoso meme, o João virou meme- [João: Sim...] né? Mas o famoso meme do "o capitalismo falhou, falha- fala você aí. [Tupá: Falha, falhará.] Falha, falhará.

João

"O capitalismo falhou, falha e falhará" foi- [Ivan: Isso...] no AntiCast, cara. [Ivan: É, foi na verdade-] No TG inclusive.

Ivan

Aí num evento aí na PUC de Minas Gerais, que a gente foi chamado. Eu nunca esqueço aquela data, porque várias coisas aconteceram, né. Primeiro, tinha sido marcado pra gente fazer esse evento, eu e o João, ali na PUC de Minas Gerais, pra falar com o pessoal. Encheu de gente, né, era 2018, o AntiCast tava ali bombando nessa parte de política, principalmente. E daí chego lá, começamos a falar e tal. O João solta uma daquelas, eu era o esquerdista moderado safado, né? E é claro que daí o pessoal gosta dos radicais, né, todo mundo gosta do bad boy, né, cara. Então assim, e o João é um grande frasista, né?

A gente não pode nunca perder isso de vista. Mas a grande curiosidade é que aquela semana foi a semana que eu estreei o primeiro episódio do Caso Evandro, né, e que daí fez a minha- [João: Verdade.] E não só isso, de novo, curiosidades internas aqui, né, pra quem faz parte da lore do AntiCast e do Mizanzukiverso. Eu desci em Belo Horizonte naquela segunda-feira, eu recebo uma ligação de uma fonte minha de Ponta Grossa, que é aqui perto de Curitiba, né, e ele falou: "Ivan, o Neves morreu". O Neves era o capitão, né, da PM que fez a operação lá em Guaratuba em 92. Então o capitão Neves.

Quando morreu foi coronel, né? Daí morreu tipo, ele foi executado, né, na casa dele, daí até hoje ninguém sabe direito o que aconteceu, enfim. Mas daí foi esse lance, tipo, eu desço em BH, Bolsonaro eleito e daí, né, Neves acabou de ser executado e daqui três dias eu vou publicar o maior projeto da minha vida, que é o Caso Evandro. E daí o João solta esse meme. E daí é muito engraçado, que tipo assim, volta e meia as pessoas não chegam assim pra mim e dizem: "Ô, você é o Ivan do Caso Evandro? Você é o Ivan do meme lá do João Carvalho?" Né? Daí eu digo: "Sou".

[Tupá: É, do meme.] É, eu sou, eu sou.

Tupá

Esse é seu legado, meu caro.

Ivan

Exato. Então assim, já que faz muito tempo que a gente não conversa ao vivo, foda-se o primeiro turno do Brasil. Eu queria pelo menos saber o que cês tão fazendo, né? Porque eu sei que a Tupá, por exemplo, volta e meia aparece ali do tipo "Tupá no tempo", "Tupá falando de demônio", "Tupá"- o que que cê tá fazendo, Tupá, de conteúdo?

Tupá

Eu fiz o negócio que eu prometi fazer há muito tempo, que é ter o meu próprio podcast, onde eu posso falar minhas próprias coisas. Eu lembro, Ivan, de eu conversando com você e falando: "Ivan, vamo gravar sobre tal coisa", e falando: "Tupá, faz seu próprio podcast, para de tentar pegar o meu podcast". Eu falei: "Mas é que é tão mais fácil".

Ivan

Não, mas é que eu sempre incentivei que você tivesse um canal próprio. [Tupá: Sim.] Assim, então independente de, né, qualquer coisa. Uhum. E daí?

Tupá

Não, com certeza, eu enrolei pra isso, mas o pessoal da TocaCast me convidou e daí a gente tá com um projeto lá, que é bem legal. João já esteve lá e eu conheci o João ao vivo, que eu não conhecia até- a gente se conhece há 11 anos e não se conhecia ao vivo.

Ivan

Cacilda!

João

É, uma coisa absurda. Foi. [Tupá: É.] E foi há pouco tempo, assim.

Ivan

Uhum. Ah, mas eu conheço-

Tupá

Qualquer coisa cê pode ir lá também.

Ivan

Tem um monte de gente que eu só conheço online também, então tem, e tem gente que eu conheço ao vivo que eu queria conhecer só online também. Então, né... Eu preferia que fosse desse jeito. [Tupá: Você mora em Curitiba, né?] Ah não, mas daí, né? Daí é paciência, né, cara. Daí já falei, já aceitei que eu vou ser morto aqui, então tá tudo bem, assim, tá? Eu quero morrer nessa cidade que eu tenho tanto ódio e amor, né? Então, enfim.

Tupá

Eu tenho um certo carinho por Curitiba, não posso negar, não. Eu fui feita em Curitiba, então não dá pra odiar tanto assim. E fora isso, eu tô com projetos com o João, porque eu chamei ele para projetos comigo. A gente tá organizando uma viagem pra Inglaterra agora em novembro. [Ivan: Uau!] Que qualquer pessoa pode ir com a gente. [Ivan: Uaaau!] Custa, mas qualquer pessoa pode ir com a gente, com tudo incluso e vai ser muito massa. A gente fez um roteirinho assim que tem de Idade Média, banhos romanos, a Shakespeare e Segunda Guerra Mundial. [Ivan: Ok.] E Mesopotâmia, com certeza.

Ivan

Tem que ter, tem que ter Mesopotâmia.

João

E ocultismo. Tem ocultismo, tem Mesopotâmia, tem Idade Média, tem tudo, tem tudo.

Tupá

Tem. [Ivan: Tá, ok.] Tem tabuleta de maldição, tem tudo.

João

Tem.

Ivan

Tá, mas cês vão visitar a casa do Crowley, alguma das casas do Crowley- [Tupá: Não...] alguma coisa assim? Não? Então, que merda. [João: Eu queria, mas-] A Golden Dawn? Nada? Não, tá.

João

Eu queria ir na escada onde teve a briga.

Tupá

Na es-

Ivan

Porra, a famosa briga com o Mathers, né?

João

Pô, cara, a briga com o Mathers na escada, cara, é o melhor momento da Golden Dawn, da Ordem inteira, cara. É maravilhoso aquilo ali, velho.

Ivan

Sim. Se você não sabe o que é isso, você por favor procure depois, né? Porque essa aí é uma excelente maneira de entender bem, assim, como funciona a cabeça de João Carvalho, Tupá Guerra e Ivan Mizanzuk, né? Né, lugares legais. Eu quero ver a escada onde rolou a treta, né, do Mathers com o Crowley, né? Então...

Tupá

Mas a gente vai visitar a igreja que o João estudou no mestrado. Então...

João

É verdade. [Ivan: Tá, ok.] Nós vamos em Canterbury- [Tupá: A gente vai pra Canterbury.] Eu vou ficar o dia inteiro falando na cabeça das pessoas sobre Honorius Augustodunensis de Regensburg, que é o que o jovem ama.

Tupá

Que é tudo que o jovem quer.

Ivan

Olha, esses dias mesmo vi jovens trocando cards disso, assim, e eles assim: "Caralho, né? Tirei aqui o meu booster pack aqui, veio aqui com a carta premium, né, desse nome aí, então enfim. Mas daí João, você, eu tenho duas perguntas pra você nesse ponto, né? Porque assim, você começou a aparecer direto no meu feed como, né, o cara que faz lives na Twitch fumando e fala da famosa história das quatro xícaras de café, né, que eu amei assim, né? Essa aí é incrível.

João

Eu queria um programa da RAI.

Ivan

Beleza. E eu gosto assim que é tipo, é literalmente você falando com pessoas fumando e soltando a vida, né? E eu acho legal isso, acho justo. Em tempos de IA, ter uma pessoa real falando sobre sua vida nesse ponto, acho muito legal. Então queria saber primeiro o que que cê tá fazendo, além de reclamar na internet, né? Porque isso todos nós. E a segunda pergunta é se você terminou um doutorado, afinal de contas, né?

João

Não terminei, cara. Eu fui até a metade, aí eu tranquei, aí eu saí, aí eu voltei de novo. É, esse meu doutorado é a história da minha vida.

Tupá

É Encantado [trecho incerto].

Ivan

É a história sem fim, né?

João

É foda, é a história sem fim. Não terminei, não tomei vergonha na cara, tenho que voltar agora e terminar ele. [Ivan: Tá.] E o que que eu tô fazendo? Eu estou sendo um programa da RAI. Mamãe me disse que eu podia ser qualquer coisa. Eu falei: "Eu quero ser um programa da RAI em 1980, às quatro horas da tarde". Só que como eu não tenho outros três amigos pra ficar gritando e fumando ao mesmo tempo que eu, vai ser só eu com as pessoas que tão do outro lado. [Ivan: É.] Tá? Então, basicamente é isso que eu faço da vida. Eu inclusive saí do Itamaraty pra fazer só isso.

[Ivan: Cara, mentira?] Verdade. Pedi três ano de LIPA, pedi três ano de licença pra interesses particulares. [Ivan: Tá.] Pra poder falar mal do Itamaraty, né? Facilita bastante eu não estar lá dentro. [Ivan: Com certeza.] E aí agora tô só por conta de militância de internet. Além disso, tô fazendo bibliotecas populares e salas de aula pelo Brasil afora. [Ivan: Uhum.] Já fizemos cinco, agora vamo construir a sexta aí perto de você, em Maringá. [Ivan: Ah, é] perto. Perto assim, é mais perto... [Tupá: É mais perto que Brasília.] ...de Curitiba do que... [Ivan: É.] ...de Brasília, né? [Ivan: É, sim.] E lá tem um lugar que chama Travecasa Pajubá, que é uma casa que recebe pessoas LGBTQIAP+ que foram expulsas de casa e que tão em transição e tal.

Tem um trabalho bem legal lá. E eu vou montar uma biblioteca popular pro pessoal lá. E já tô planejando a sétima pra uma ocupação numa periferia em São Paulo, que a gente tá organizando pra frente aí. Então é isso. Além disso, tô com a nossa viagem com a Tupá. Não só eu e Tupá, né? Dona Modista também vai com a gente. Então vão ser três historiadores falando na sua cabeça o dia inteiro pra que cê não tenha que se preocupar em falar.

Ivan

Pra você não ter que se preocupar em ouvir as vozes da sua cabeça, né? Cê pode ouvir outras vozes.

João

Exatamente. E aí nós tamo com essa viagem planejada. Eu tô com um RPG muito divertido com o Emílio, com os meninos do Três Elementos e com a Lorelay Fox, que é... [Ivan: Olha!] Jogar com dona Lorelay é uma coisa de outro mundo. Tupá foi lá ver a gente ao vivo, teve a oportunidade de...

Tupá

Eu recomendo demais assistir, porque tem a combinação de Lorelay ser maravilhosa e Carlos Ruas, que não consegue guardar duas palavras de instruções. [João: Cara, teve...] Então a cara do João sofrendo. [João: Nossa, cara.] Ele faz planos e o Ruas fala: "Combinado". Aí ele faz outra coisa.

João

Não, e assim, teve um... literalmente, acho que foi na última sessão, eu passei uns 15 minutos explicando pro Ruas exatamente o que a gente ia fazer passo a passo. Terminou. Ele vira pro Emílio e fala: "Mestre, qual que é o plano?" Ele: "Como assim, [Ivan: Ruas?] João acabou de te falar. [Ivan: Tá há 15] minutos te falando." "Ah, então isso tava valendo?" "Tava.

Ivan

Cê lembra qual que é o plano, Ruas?" "Não, João, qual que é o plano?" Saca? [João: Então assim, é qualquer coisa,] sabe? Uhum.

João

É divertidíssimo. Além disso, eu tô com um podcast de divulgação científica com o Alberto Dell’Isola, que é o "Hora Boa". Tupá já teve lá [Ivan: com] a gente também. [Ivan: Muito incrível.] Né? Assim, eu e Tupá tivemos junto fazendo coisas um pro outro. A gente aproveitou Dona Tupá e tudo mais. E a Cacilda

Tupá

tá aqui do ladinho. Basicamente a gente fez tudo isso em tipo dois dias. [Ivan: Foi.] A gente se viu [Ivan: por dois] dias e saiu tudo isso.

Ivan

Tem que aproveitar. Continuo

João

com o "Decrépitos", já tá com 11 anos, que é [Ivan: eu... Meu Deus! ...e] o pai falando bobagem. Além das live todo dia, militância, é isso. E aí vou ter bastante tempo de dormir quando estiver morto. Essa é a ideia.

Ivan

Tá, justo, né? Então parabéns, fico feliz aí que esteja cheio das coisas. O famoso tá feliz? Tá feliz?

João

Não, tô. É aquela coisa, né? A gente é uberizado por necessidade, mas ser uberizado em projetos legais que você escolheu é menos ruim, cê entende?

Ivan

Uhum. Sim, com certeza. Então assim,

João

em última instância, eu continuo sendo o meme, né, da Rede TV: "Eu me prostituo pra comprar x-burguer". Sim.

Ivan

Mas tá podendo escolher o cliente, pelo menos, né? Então. Mas é isso, mas senhores finos, ambiente TV [trecho incerto], [João: com acessórios. Então] assim, né? Olha aí. Só vantagem. Tem

Tupá

que comemorar as pequenas vitórias da vida.

João

É isso, cara. É isso.

Ivan

Sim. Ótimo, maravilha. Bom... Faça carinho [Tupá: no seu cachorro, João.] É, faça, dê atenção. Eu faço o

João

tempo inteiro. É porque eu tô com uma mão nela, mas toda hora que eu paro pra, por exemplo, ajeitar a posição da minha mão, ela fica puta.

Ivan

Ah, bom, é esse tom aí. É isso. Eu vou então falar que eu estou aqui no AntiCast nesse momento, mas também acho que é bom assim vocês saberem que eu quero, preciso do apoio de vocês quando puderem aí também no apoio ponto... eu acho que é esse, apoio.mizanzuk.com, né? Porque esse ano não apenas aí tamo fazendo o AntiCast, mas também ano que... já comecei a pesquisa e produção da próxima temporada do Projeto Humanos, que sai ano que vem, que é nada mais, nada menos que o caso PC Farias, uma coisa tranquila. Prometo. Tá? E assim, é o famoso do tipo: "Cara, qual é o caso que eu acho que eu consigo resolver no Brasil e que ninguém teve ainda tempo e paciência pra olhar direito, né?" Daí eu pensei: "Acho que o PC Farias parece uma boa ideia".

Então, no momento, eu ainda estou naquele ponto assim que tipo, é, adoraria da ajuda de vocês, porque se eu precisar contratar segurança pública ou segurança privada ou sair do país, vai ser bom ter, né, um pé de meia, tá? Então agradeço. Eu acho que é isso, [João: sabe, Ivan? A] gente durante

João

a vida vai andando, vai vendo um vespeiro, vai baixando a calça e fala: "Vou enfiar minha rola, vamo ver o que acontece, né?"

Ivan

Então assim, é... Por que não? Sim. Isso. É, então deem uma olhada ali em apoio.mizanzuk.com, por gentileza, que daí você ajuda a AntiCast, Projeto Humanos, qualquer outra coisa aí também que eu vou inventar de fazer. E obviamente também tem sempre os meus cursos aí que tão rolando. Tem curso de storytelling aí pra rolar, inclusive mizanzuk.com tem ali a área de cursos. É muito bom. Muito obrigado, Tupá. Fico muito feliz. Dei um curso de storytelling e tarô esses dias, foi bem divertido. Eu vi. O pessoal... Eu vi. Foi muito divertido. Muito místico você. Muito místico. Eu sou, cê sabe, né? Assim, eu sou total nova era, cara.

Então, é.

João

Cara, a minha pergunta: qual tarô?

Ivan

Crowley, né? Imagine. É o melhor que tem. Não é meu, desculpa. Ué. Né? Não, assim, o que eu sempre... Tô olhando [Tupá: aqui pros meus.] Eu ganhei um de ratinhos recentemente que é muito fofo. Ah, cara, não, eu acho fofo. Não, cara, o meu sonho era poder ter dinheiro suficiente pra poder comprar tipo vários decks de tarô. E eu, tipo, acho que um dos que eu mais fiquei pirado foi um da Hello Kitty, uma vez que eu vi assim, eu fiquei: "Cara, que incrível ter um deck da Hello Kitty". É, e um dos que eu mais quis na minha vida era um da Vertigo, da DC Vertigo, que era com os personagens da DC, né?

Então, da Vertigo, tipo Constantine, Sandman e tal. E aquele ali, acho que todas as obras eram... as artes eram do Dave McKean, se eu bem lembro. E era lindo assim, mas, é, imagine, tinha visto isso 20 anos atrás e já tava fora de circulação, então cê encontrar hoje é centenas de dólares assim, né? Aí... Ou alguém que não [Tupá: quer mais te dar.] Ah, tá. Se alguém quiser, né? Não sei onde eu tô. Eu nunca comprei

Tupá

um tarô. Todos os tarôs que eu tenho eu ganhei de formas completamente aleatórias.

Ivan

Mas é que você é menina, daí meninas ganham presente, meninos ganham porrada, cê sabe, é a regra do recreio. [Tupá: Eu ganhei de amigos, inclusive.] Então, mas justamente. Todos os meus tarôs foram de amigos próximos. Mas é que daí justamente, né? Os amigos gostam de agradar meninas. Eu não ganho presente dos meus amigos. No máximo me xingam, me dão um tapa na cara, assim, tal, assim... [Tupá: Sabe quem que] tem que mudar isso? Na festa que

João

o Ivan vai, a menina ganha tarô e o menino ganha sigilo ritual enoquiano,

Ivan

entendeu? Exatamente. Tem isso também. Não, mas se

Tupá

você acha ruim que os homens não têm amizades fofas e se batem, sabe quem tem que mudar isso, né?

Ivan

Tem, né? Não sei. Então acabar com o patriarcado, né, cara? É esse o ponto, cara. Boas sortes. Não, mas é que eu tenho boas lembranças de jogar malha na escola. Tinha malha aí, João? Malha?

João

Talvez tinha com outro nome, porque isso

Ivan

tinha uma coisa muito regional. Define a malha. Malha era... cê tem uma bola, geralmente lá dentro não tinha bola, né, porque era recreio e você fazia isso em qualquer canto, então geralmente pegava uma latinha amassada de algum refrigerante que vendia na cantina às 9:30 da manhã no recreio, né, porque isso era anos 80, 90. Então daí cê pegava aquela latinha, você amassava e daí aquilo era a bola que cê ia chutando um pro outro. A pessoa que errasse o chute, o toque ou deixasse passar por debaixo da perna, ela seria vítima do malha, que seria basicamente todo mundo empurrar nela... [João: Que] aí apanhava até encostar em algum lugar. ...ia apanhar até encostar no pique.

Isso, né.

João

A gente tinha a nossa versão regional em Minas, que chama ranca.

Ivan

Ranca? Tá, que é a mesma coisa?

João

Só que é semi, é diferente. A nossa era um pouco mais violenta. O que que acontecia? A gente ia todo mundo pra quadra com uma bola ou com a pilha, ou com a pedra, ou com qualquer coisa, e as pessoas iam chutando na direção da outra como se fosse uma queimada com os pés. Só podia dar um toque, e quem a bola encostasse tinha que atravessar a quadra inteira e encostar na outra parede enquanto era brutalmente, né, espancado por todos no caminho. [Ivan: É, era.] E a galera gritava: "Ranca!", porque a ideia era rancar a pedaço. [Tupá: Rancar, né?] É. [Ivan: Muito bom.] Então foi assim que eu fui socializado.

Ivan

E o pior é que esses caras eram todos os amigos, né? [João: É, eu] sei. Ima... [João: É, e... Cara, é aquela] coisa, né?

João

Também. Começa no fato que eu era bolsista num colégio que chama Pio XII, uma excelente homenagem, né? Não

Ivan

tinha um papa pior, né?

Tupá

Eu adoro isso, essa lógica. Vamo escolher um papa, gente. Qual que a gente quer?

Ivan

O Pio XII, óbvio, por que outro, né? Então.

João

E essa era a nossa socialização, né?

Ivan

Sim, exato.

Tupá

Legal, eu já tendo ideias aqui da gente...

João

Uma coisa muito bonita. Cara, cê falou do tarot...

Tupá

A gente podia fazer um podcast só de brincadeiras da infância, olha aí.

Ivan

Isso. É.

João

É, e aí fica tocando Molejão no fundo, né? [Ivan: Pois é.] Brincadeira de criança.

Ivan

Não, daí tem que tocar Mamonas. Mamonas que era a trilha sonora da infância, assim, total, né? E É o Tchan.

Tupá

Ah, se eu tô jogando...

João

E assim que cê falou de tarot, cara. Pergunta, desculpa, Tupá...

Ivan

Claro.

Tupá

Não, tudo bem.

João

Mas cê quer falar, querida? Eu te interrompi. [Tupá: Não, pode falar.] Porque eu tenho umas...

Ivan

Foda-se as eleições, né? Acho que ninguém quer falar sobre isso, meu.

Tupá

Eu acho que todo mundo tá de saco cheio.

Ivan

Não, esse assunto tá muito mais agradável. Esse assunto... [João: De tarot?] Entendi.

João

Cê chegou a ver Batalha dos Destinos, cara? O reality show sul-coreano. [Ivan: Não, mas me falaram...] Bah, mano.

Ivan

E falaram que é foda, que é foda.

João

Mano, cê vai amar. Cê vai amar. Cê vai amar. Tupá também, se você não viu, cê vai amar, tá? . Qual que é a ideia? Cara, isso aqui é a coisa, é a melhor coisa que saiu da televisão sul-coreana desde Sim [trecho incerto]. Cê tem os mudang, que são os xamãs tradicionais coreanos. [Tupá: Ah, cê me falou disso.] Cê tem mestres de Saju, que é a astrologia coreana. Cê tem leitor de tarot, cês têm o Guansang, que é os especialista em leitura facial e leitura de pé. E é uma batalha de quem acerta mais as parada. Então começa com 30 e poucos e vai eliminando.

É uma batalha de adivinhos, xamãs e coisas congêneres, pra ver quem que acerta mais. Aí beleza, no começo tem tipo assim, entra cinco maluco lá dentro e fala: "Um passou por uma cirurgia. Aonde e qual? Faça sua leitura." [Ivan: Uhum.] E aí vai tendo. [Ivan: E vai.] Só que aí, na hora que entra na segunda fase, um começa a ler a vida do outro, e aí vira uma batalha direta um do outro. É muito bom, cara.

Ivan

Caralho, ou seja, não, me falaram que é foda, que é tipo, é realmente, tipo, é muito bom. Tô bem curioso.

João

Cara, eu odeio reality, eu amei essa porra. Então assim...

Tupá

Eu já amo reality, então provavelmente eu vou gostar.

Ivan

É, também. Mas daí só pra encerrar tarot, eu queria só dizer que esses dias eu vi o tarot do Senhor dos Anéis. Eu nem curto Senhor dos Anéis, mas esse tarot do Senhor dos Anéis, cara... [Tupá: Quero.] ...eu achei muito lindo, cara. Assim, eu disse: "Olha, parabéns!" [João: Belíssimo.] Uma caixona bonita assim, tipo, caixa de luxo assim, com várias parada, tipo, porra, cara, parabéns aqui pra galera, né? E...

Tupá

A gente é muito besta, né? A gente adora, tipo, essa parada tem uma caixa enorme e papel colorido. [Ivan: Tem.] Quero.

Ivan

Não, tem que ter, né? Eu daí eu só não pensar muito no plástico, né? Porque essa foi uma obsessão minha um tempo atrás, né, que eu disse assim: "Eu não posso parar pra pensar em plástico", porque, cara, quando cê começa a olhar a questão de plástico, eu não recomendo ninguém a parar pra pensar sobre plástico, porque vira uma neura, assim, que você, se deixar, você vai longe na parada, né? Então, mas não tinha muito plástico, tinha muito papel. Apesar que papel laminado, sabia que o papel laminado ele não é mais reciclável, né? E daí ele é tipo um plástico, então também não tem nada.

João

Ele eventualmente parará dentro de nós todos.

Ivan

Exatamente, né? E daí eu queria muito que, né, eu me tranquilizo sabendo que em algum momento alguém vai fazer um grande foguete lixeiro, que vai pegar um grande lixão numa redinha assim, sabe? Vai levar tudo e vai levar pro sol, em direção ao sol, e daí queima. Daí tudo bem. Eu sei que isso vai acontecer em algum momento, tá? Porque é mais fácil imaginar isso do que imaginar o fim do capitalismo, né? É isso aí. [João: Aí, ó.] Ó, é mais fácil viabilizar gente pra, tipo, bora fazer uma vaquinha pra fazer o foguete que vai levar todo o lixo da tua cidade pro sol, do que bora acabar com a fome no mundo, né?

Ou redistribuição de renda.

João

O problema é que esse foguete será feito pela SpaceX, e aí ele vai começar a dar ré. E aí eventualmente ele vai soltar o plástico pra que eles se tornem vários pequenos satélites geoestacionários que vão foder tudo.

Ivan

Exato, né? Mas o meu Twitter vai tá funcionando, né? Porque daí tá tudo bem, né? Então, por que que eu vou me preocupar com isso, né? Tá certo. Vamo falar logo sobre a eleição porque senão o pessoal vai ficar chateado. Ah, não sei, eu não tô lendo comentário, eu não vou ler também, tá? Em algum momento eu olho alguma coisa aqui, tal. É que assim, cara, é que ó, eu parei de fazer o AntiCast em 2021, né, pouco depois que o Nicolas nasc-- não, 2020 ainda, pouco antes do Nicolas nascer, a Gi Camargo assumiu, daí ela ficou um ano e pouquinho e daí parou e daí o AntiCast ficou nesse hiato.

E daí de lá pra cá, não existe mais podcast. Podcast tipo áudio, né? Agora podcast virou isso, vídeo, né? Então quando tinha aquelas brigas homéricas na saudosa comunidade do Facebook, Podcast BR, em que em 2015, 2016 alguém falava: "Ô galera!" Não, era pior. Falava assim: "Ô galera, ao invés de ficar pagando servidor pra gente fazer feed e essas coisas, porque tudo isso a gente paga do nosso dinheiro, por que que a gente não bota os episódios no YouTube, que é de graça?" E daí começava um grande e acalorado debate teórico sobre o conceito, né, do que é um podcast, né? Então, vamos olhar pra dentro do que é o podcast.

Então o podcast é um, e tal. E daí simplesmente as pessoas decidiram fazer no YouTube e foi, daí veio o lance de cortes e tal, redes sociais virarem tudo isso, viraram vídeo. Então, quando eu decidi voltar a fazer, eu disse: "Ok, vai ser vídeo", né? Obviamente se alguém tiver ouvindo isso aqui pelo Spotify ou qualquer agregador de podcast aí também, show, mas existe o vídeo agora no canal do YouTube do AntiCast.

João

Não, e tem o vídeo no Spotify, que é o que mais confunde a minha cabeça de todos, cara. [Ivan: Ah, é.] A galera que vê em vídeo no Spotify, cara.

Ivan

Não entendo. Não entendo a lógica também, cara, mas enfim.

Tupá

Tem muitas coisas que eu não entendo no Brasil atual. Eu acho que...

Ivan

Não, mas isso é mundo, né?

Tupá

Eu tô falando as mais de boa.

Ivan

É, uhum. Mas isso é mundo, né? Então, enfim. Mas tá, então eu estou voltando agora pra um mundo que é tipo, eu sou velho demais pra isso, né? Então, mas eu fico muito feliz, acho que isso vale a pena dizer nesse momento que a gente tá voltando aqui pra conversar, é que quando eu tava, quando o AntiCast era aquele podcast de política ali 2018, 2019, 2020, que foram os anos mais ativos assim, né? Também teve antes, assim e tal. Desde 2015, pelo menos, que a gente tinha se assumido total como podcast de política. Eu lembro que era um cenário de muito medo de falar de política num podcast, ainda mais por um viés de esquerda.

E a cobrança que a gente tinha era sempre de: "Não, mas você tem que chamar gente de outras vertentes políticas." Eu dizia: "Mas eu chamo. Eu chamo comunista, eu chamo anarquista, eu sou social-democrata, né, eu chamo uma galera que é trabalhista, eu chamo todos os representantes da esquerda, né, então." "Ah, não, quero alguém da direita." "Não, daí não, daí não vai ter. Daí não vai ter." Daí você vai pra qualquer outro meio de comunicação, vai tá, ó, cheio, né? Não falta opção pra ti, mas aqui era o espaço disso. E eu tô falando isso porque naquele momento era o lugar em que a gente podia realmente debater ideias que não eram muito comuns nesse meio do podcast e que daí eu lembro quando o Zamiliano, um grande abraço, né, chegou e falou: "Pô, eu vou fazer um podcast." "Ah, porra, foda!

E qual vai ser o nome?" "Revolushow." Né, e daí eu falei: "Caralho, incrível, né, vai." E daí começou a fazer o Revolushow, daí apareceu o Jones Manoel ali no meio e daqui a pouco tava todo mundo fazendo. Eu digo, e daí começou um movimento assim de tipo, galera se organizando e fazendo. Então foi uma coisinha pequena que começa ali, cê vai dizer 2015, 2016, e que hoje tá aí Jones Manoel eleito deputado federal, né?

João

Mano, e quando... não, deixa eu te contar um caso, né, porque o Revolushow fui eu e o Zami quem começamos, eu, o Zami, o Poderoso Porco do MDM e o Diego. E aí a gente tava, precisava de mais gente, tava faltando braço e tal. E aí a gente tava pensando: "Pô, quem que a gente chama? Quem que a gente chama?" Deixa eu te contar.

Tupá

Faltando braço aí cês chamaram o Jones?

João

Não, na época. Primeiro, né, assim. [Ivan: Pá, psht.] Pá, pum. Primeiro que na época o braço do Jones já era grande, mas não era tão grande, tá? E cara, ironicamente, o Jones quando a gente chamou tinha 7 mil seguidores no YouTube, cara. [Ivan: Uhum.] 7 mil seguidores no YouTube, cara. E a gente começou o AntiCast porque a gente sempre era chamado pra ir no podcast... [Ivan: O Revolushow.] ...do Zami, assim. [Ivan: Cê começou o Revolushow.] O Revolushow, porque a gente sempre era chamado pra ir, principalmente aqui, mas em outros lugares também. E a gente falou assim: "Mano, tem demanda, tem toda uma demanda contida aí, vamo acreditar no campo dos sonhos, vamo construir e eles virão." E aí assim, eu, o Diego e o Zami, na época cada um mais fodido do que o outro, né, compramos microfone de 15 conto na Shopee.

O Zamiliano falou: "Esse fim de semana eu vou aprender a mexer no Sound Forge." Falei: "Beleza, se aplica aí." E assim nasceu o Revolushow, cara. Então se não fosse por isso aqui, meu irmão, não teria Revolushow. E se não fosse pelo Revolushow, não teria muita coisa. Então foi... [Ivan: Uhum. Né, ficou muito...] Foi um momento muito importante assim, cara.

Ivan

Não, e eu fico muito feliz porque daí toda vez que alguém falava assim: "Ah, o AntiCast tinha que voltar, o AntiCast tinha que voltar", eu sempre falei: "Cara, o AntiCast cumpriu um papel que eu acho que não tem mais." Eu acho que tem gente hoje que faz isso muito melhor. É o João na Twitch dele, sei lá, o próprio Jones Manoel, obviamente, no canal dele. Daí assim, eu vou citar vários nomes que muita gente vai ficar chateada porque: "Ah, não gosto desse, não gosto da..." foda-se, eu vou falar, tá? Então, o Ian Neves, eu acho que é importante, o Humberto é um cara importante. Então, tipo, toda essa galera que, assim, muitas vezes assim... ai, cacete, né?

Daí eu começo, porque daí eu tô, né, já é 10:30 da noite, eu tô no Monster aqui pra poder segurar a barra, né? O Ritalina já parou de fazer efeito, então eu já tô no... mas então, assim, você vai ter uma produção hoje em dia de conteúdo na internet, de galera de esquerda, que, entenda, era muito tímida, eu tinha medo de falar mesmo. E eu acho que daí já puxando pro ponto aqui, então assim, primeiro, assim, eu realmente não acho que o AntiCast hoje em dia tem a força que um dia teve. Obviamente, também a gente tá parado há muito tempo. Eu acho que esse espaço já foi ocupado por gente que é muito melhor do que eu jamais seria.

Eu não sou uma figura de influência política tão grande, eu não tenho 1% do conhecimento que a Tupá e o João têm, por exemplo. Eu dou meus pitacos e eu sou sempre muito massacrado por muita coisa que eu falo. E ao falar isso também, entenda, é por isso que eu acho que eu me encontrei tão bem fazendo o projeto Humanos, porque, é tipo, eu caio de cabeça em uma coisa, eu fico um ano pesquisando aquela merda, e daí quando eu publico é porque aquilo lá já tá verificado de uma maneira tão fodida, assim, que tipo, daí eu só toco, tá? Então, ah, não gostou, mas tipo, tá aqui todas as evidências.

Eu me sinto mais confortável desse jeito. Eu acho que a vida de militância política que vocês levam, e todos esses outros influenciadores, ela exige um psicológico que, cara, eu não tenho. Assim, eu não tenho paciência pra lidar... cara, e curiosamente, eu sou muito mais atacado pela galera da esquerda porque eu não sou rebuscado o suficiente, qualquer coisa assim. Mas então assim...

João

Ah, tranquilo, nós todos somos, cara.

Ivan

Todos são. Não, mas daí, mas é que assim, tem que ter um certo nível de, não vou nem dizer de psicopatia, assim, sabe? Mas de desligamento, do tipo assim, a minha vida não é isso aqui e eu consigo me desligar. Eu não consigo ter tanto isso. Isso aí me afeta às vezes assim, tipo, fodido. Então por isso que eu prefiro me pegar mais em pontos que eu tenho mais controle. Mas eu fico muito feliz de tá aqui com essa reunião. Aqui é só toda essa explicação toda pra dizer assim: "Ah, por que que o AntiCast não voltou antes?" É por causa disso, assim, eu não vi a necessidade, eu acho que ele cumpriu uma função.

Temos aqui pessoas hoje que tão produzindo conteúdo incrível, independente de mim e que vão fazer coisas muito melhores. Então é isso. Se vai voltar, se eu vou falar mais, sei lá, daí a gente vai conversando. Mas nesse ponto daí, eu queria já puxar esse gancho. Eu sei que o João deve tá querendo fazer vários comentários, mas eu vou te direcionar pra isso e daí você pode falar do que cê quiser, João. E daí Tupá, desculpa ser machista. Vou passar pro João primeiro, tá? Assim, o patriarcado é uma merda, cara. É foda, cara. Então, foi mal.

Tupá

Mas eu preciso fazer um adendo antes, muito importante. [Ivan: Tá, cê quer fazer um...] Você é muito bom em conduzir coisas e entrevistar. [Ivan: Ah, obrigado.] Então para de se achar besta, tá? Para de ser besta. De "ai, que eu não faço isso, ai porque...", tá tudo bem, cada um faz uma coisa. Eu também não sou da militância do mesmo jeito que o João. Por quê? Porque tem vários jeitos. [Ivan: Sim.] Saber conduzir conversa é importante. Então agora pode continuar.

Ivan

Muito obrigado, querida. Então, vamos lá. Uma coisa que me marcou muito nessa eleição e que pra mim isso aí já tava se desenhando muito bem, assim, desde pelo menos 2018. Acho que 2018 é o ano... né, eu lembro que 2014 foi a eleição presidencial que a gente começou a dizer assim: "Pô, será que o mundo digital vai ter efeito no real ou não?" 2018 foi que tipo sim, pra caralho, né? Assim, veja só, o Bolsonaro quase ganhou no primeiro turno. E as pesquisas não tavam pegando aquilo. Daí 2022 já tava meio que assim: "Ah, vamo fazer uma grande frente", tá? Mas ainda tinha aquele lance de, né, assim, uma política clássica, de alguma maneira.

E daí você já tinha alguns efeitos aparecendo de alguns influenciadores de direita sendo eleitos, né? E eu acho que nesse ponto, falamos do Jones agora, acho que o Jones foi um cara que pegou muito bem isso, que falou assim: "Esse aqui é o caminho e é o enfrentamento." Porque você vai ter daí a situação de esses influenciadores de direita sendo eleitos, assim, com recordes de votos, muitas vezes. Gente muito nova, muito nova. Com discurso muito fraquinho, assim, em questão de políticas e tal, de propostas, mas muita raiva, muita disposição em construir um show, sabendo engajar em redes, então virando influenciadores. São influenciadores que foram pra política.

E são influenciadores que não nasceram do tipo: "Ah, eu era alguma coisa, eu fiquei famoso, daí virei político", que era o caminho normal, né? Não. Tipo, ele já fica famoso a partir da política, né? De uma opinião política e no enfrentamento. Em redes sociais que valorizam justamente o engajamento, né, o bait, a raiva e tal. Então, a sensação que nos dá é que pessoas cada vez mais agressivas vão sendo eleitas. E daí, pra não usar o termo agressivo, talvez combativo. E daí de novo o Jones, que assim, eu vou falar isso como um elogio, mas o Jones pra mim é um psicopata, né? Assim, ele consegue tá na frente de uma pessoa que está falando absurdos e ele consegue ficar calmo, ainda dá uma zoada, [risos], e tipo, vai, sai dali, vai tomar uma cerveja como se nada aconteceu.

Eu ficaria, tipo, trêmulo e tal. Então assim, João, estamos realmente na época em que tipo, mano, se você quiser ser político de esquerda ou se você quiser se mobilizar, você vai ter que ir pra rede, não tem mais o que fugir. E daí, João, eu vou te citar uma coisinha que eu vi um corte teu que cê falava assim: "Se Lênin estivesse vivo, ele era tiktoker." E eu achei maravilhoso isso, né?

João

Cara, eu falei isso e eu reitero isso. Em que sentido? No sentido de que sempre o movimento comunista, o antigo movimento social-democrata, né? vamo lembrar que no começo se falava social-democracia no século XIX, né? Inclusive ainda no século XX, o partido que vira o Partido Comunista da União Soviética era o POSDR, o Partido Operário Social-Democrata Russo. Sempre se buscou o mass media, o meio de comunicação em massa que fosse o mais eficaz e barato do seu tempo e o mais acessível do seu tempo. Por quê? Porque precisava-se de se comunicar com o maior número de pessoas possíveis da melhor forma possível. Isso varia ao longo da história, né?

E a gente tem vários exemplos diferentes. Então, por exemplo, se a gente pega pra estudar a Revolução Argelina, o rádio foi importantíssimo pra a Revolução Argelina. Por quê? Porque eles tomavam o rádio, faziam uma rádio pirata e transmitiam em berbere, transmitiam em árabe, transmitiam nas línguas daquele povo, de um povo cuja maioria deles era analfabeto, não tinha acesso à educação formal por causa do colonialismo francês. Então, ali era muito mais complicado, por exemplo, eu passar um jornal ou fazer circular esse jornal, ter acesso a uma imprensa, ter acesso à circulação era muito mais difícil do que numa época em que todo mundo tinha seu radinho e conseguia sintonizar e a gente espalhava ali na voz entre a galera: "Olha, vai ter transmissão por volta de tal hora.

Fica ouvindo que a gente vai interromper essa porra aqui do jeito que dá, nós vamo falar o que é preciso ser falado." Ia lá e pegava o rádio. Na época do Lênin, o jornal ainda era muito importante. Por quê? Porque era fácil você conseguir montar uma imprensa pirata, né? Pra isso, inclusive, que, por exemplo, se conduziam assaltos, se conduziam campanhas de arrecadação, se conduzia de todas as formas possíveis, legais e ilegais pra se conseguir esses aparatos, que era obviamente proibido se ter esses aparatos, né? Esses aparatos nunca foram feitos pra estarem na mão dos trabalhadores, como nunca foi feito nenhum mass media, né? O jornal não nasce pra que o trabalhador se eduque melhor.

O rádio não nasce pra que informações de grande qualidade possam chegar e alavancar a ciência no seio do proletariado. Todos os mass media sempre nasceram, e aqui o Althusser acoberta de razão, né, quando ele fala no aparato ideológicos de poder, que eles são aparatos ideológicos de poder, né? Ou seja, cê precisa desses aparatos. Por quê? Porque batendo nas pessoas, chega uma hora que elas cansam de apanhar. Então, cê tem que bater indiretamente nas pessoas, né, de uma forma mais tranquila. E é importante a gente tomar estes meios de poder, sejam eles quais forem e sejam os meios do nosso tempo. Isso significa que o único trabalho que tem que ser feito é o trabalho da internet?

Obviamente que não. A internet não é uma coisa descolada, ela não é um ente nomotético, axiomático, voando fora do mundo material, né? Então, assim, a função de estar na internet é juntar as pessoas que têm acesso na internet pra que elas possam se mobilizar no mundo real, pra que elas possam se organizar no mundo real. Eu falo o dia inteiro na internet para as pessoas se organizarem pra que elas possam se organizar nos seus bairros, nas suas comunidades, né, pra que elas possam ir para os seus sindicatos, pra que elas possam atuar politicamente na sua vida diuturna, na sua vida do dia a dia. Só que hoje em dia, cara, não tem mais como.

Por mais que a gente ainda seja um país com acessos muito diferenciados à internet, né? Se a gente fosse pegar cinco anos atrás, os dados eram muito piores. Você tinha metade da população que tinha acesso, 90% dessas pessoas tinham acesso só via celular. E ainda assim, dentro do celular, nos planos que normalmente eram os planos pré-pagos, que você tinha acesso principalmente àquilo que era franqueado gratuitamente nesse plano. O Facebook, gente, não foi e virou e falou assim pra todas as operadoras de celular do Brasil: "Ofereço de graça os meus serviços", porque eles amam demais que as pessoas possam ver seus vizinhos, né? Então, assim, tem um porquê que isso foi feito, né?

Não foi pelo coração gigantesco reptiliano, né, do [Ivan: Do Zuckerberg.] do Zuckerberg, saca? Não é tipo assim, sua pupila nictitante piscou de lado e ele falou: "Pobres humanos não conseguem, né, conversar com seus amiguinhos. Deixa eu ajudar eles aqui." Obviamente, né, gente, não é por causa disso. Mas o fato é que isso fez com que muitas pessoas tivessem acesso ao Facebook. O Facebook foi uma área muito importante. A gente lembra das discussões na Cracóvia, a gente lembra das discussões dos grupos, o tanto que aquilo foi importante naquela época. E hoje em dia é importante a gente estar em absolutamente todo e qualquer lugar que a gente consiga, mas também aqui fora.

Então, eu acho que a gente chegou muito atrasado nisso, né? Nós como esquerda, como um todo, o campo inteiro. E aí, desde nós revolucionários até os que não são, os progressistas, social-democratas, não importa. O campo da esquerda como um todo demorou a se aperceber desse fenômeno. Nós chegamos atrasados nesse fenômeno. Quem comandou este fenômeno foi a direita internacionalmente e no Brasil também. E é muito lógico que tenha sido. Primeiro, porque esses meios foram criados pela direita. Segundo, uma vez os meios criados pela direita, eles servem pra reprodução da ideologia. Terceiro, existe uma coisa que é um financiamento massivo, estatal, de think tanks, de milionários, de tudo mais, que não se compara, gente.

Nós tamo aqui, os três aqui, três trabalhadores uberizados, às 10:50 da noite, que já trabalharam o dia inteiro fazendo as suas próprias casas, onde cada um de nós teve que aprender a ser um estúdio completo de rádio e TV. [Tupá: É isso.] É isso. [Ivan: Basicamente.] É isso. Sabe? A gente chegou num ponto tal que quando eu vou fazer uma live, eu sou o operador do áudio, eu sou o operador do vídeo, eu sou o menino que olha o chat, eu sou o cara que põe o teleprompter, eu sou o cara que clica no botão e fala: "Ratinho!" Então, assim, a gente tá fazendo cinco, seis, sete, dez profissões diferentes.

Por quê? Porque se a gente não fizer isso, a gente não faz. Agora, existe uma diferença qualitativa, muitas vezes, que vem da própria organicidade, que é a gente ter, de fato, uma mobilização massiva que torna as coisas que eram impensáveis e impossíveis em realidade. Pesem todos os pesares, pese o fato da gente ter eleito o Quarto Reich pra a Câmara e principalmente para o Senado. Se qualquer pessoa, na época que a gente começou a espalhar o AntiCast, a começar o Revolushow, virasse e falasse: três caras que se declaram abertamente comunistas, marxistas ou marxistas-leninistas, vão fazer campanha se declarando abertamente comunistas, marxistas-leninistas e vão chegar ao poder ao Brasil.

Cara, isso não acontecia há décadas, no plural de muitas, no plural de antes de eu estar vivo, antes do Ivan estar vivo. E isso era completamente impensável.

Ivan

O Glauber não seria um cara que conseguiu quebrar um pouco?

João

O Glauber, ele não se coloca como um marxista-leninista. O Glauber se coloca como um socialista e tá ali. Ele já é uma quebra. Já é uma quebra. O Jones é o cara que tá o dia inteiro falando em todos os cantos de Revolução Brasileira. [Ivan: Sim.] Humberto é o dia inteiro falando em todos os cantos de revolução. Elias é dentro do PCdoB, é uma outra linha. A gente tem nossas discrepâncias aqui, mas é um cara que fala abertamente da necessidade de uma consecução de uma revolução. Então, assim, é um passo além do que a gente já tinha conseguido. E é um passo que até muito pouco tempo atrás era completamente impensável.

O que eram 12 caras numa Kombi, hoje em dia são 200 mil caras numa Kombi. Não tem? Gente, se pensar, o Jones se elegeu com uma votação muito expressiva. O Jones em Pernambuco, o Jones não foi pra São Paulo. Por quê? O Jones, se as pessoas muitas vezes se questionavam: por que o Jones não vai para São Paulo? Porque o Jones não fez uma campanha de internet. O Jones fez uma campanha física que demorou dois anos e tanto. Porque o Jones fez primeiro a campanha dele pra governador, aonde ele teve 30 e poucos mil votos, mas ele foi em cada uma das cidades do interior de Pernambuco.

Continuou ao longo desses dois anos indo, frequentando, estando com o sindicato, estando com as pessoas na rua, falando pelo Brasil inteiro, mas também falando lá. O canal dele nunca deixou de discutir Pernambuco e os problemas de Pernambuco, mesmo ele sabendo que 90% da audiência dele tava no Sudeste e que aqueles vídeos iam morrer ali, mas ele tinha a sua importância. Fez essa campanha de longa duração, teve quase 250 mil votos. Ele só perdeu para o nepo baby da família Campos, gente. Se você pensar que a campanha do Jones é um troco de pinga que veio do PSOL, e não é uma crítica ao PSOL não, gente, porque o PSOL não tem esse dinheiro todo também não.

Mas vaquinha de internet e que esse cara até 90 e pouco por cento da apuração de Pernambuco tava em primeiro na frente do filho do Campos e que terminou em segundo com uma votação que tornaria ele governador no Amapá e no Acre. [Ivan: Uhum.] É impressionante, é algo muito massivo.

Ivan

João, a Tupá quer falar. E a gente... a gente não quer ser machista. Já fui muito machista antes. Então, Tupá, quebre o patriarcado.

Tupá

São apontamentos interessantes aqui. Eu não sou uma pessoa que é muito boa de interromper as pessoas. Então, vamo lá.

Ivan

Não, pode interromper. Você... Aqui o patriarcado, você vai quebrar o patriarcado. Pode falar.

Tupá

É, vou. Mas então, algumas coisas que eu acho muito interessantes, né? Primeiro, o Jones, sim. Eu tenho um outro exemplo que eu acho muito interessante, que não é de um marxista declarado, mas os dois candidatos de Brasília mais votados de Brasília, tanto o Fábio Félix quanto o Max Maciel, né? Os dois do PSOL. Brasília foi um dos estados, acho que foi em porcentagem o estado que mais votou no PSOL. E ao mesmo tempo elegeu a Michelle pro Senado. Então, assim... E Bia Kicis. Então, assim, Brasília é um caso um tanto quanto curioso. Mas assim, pra ser muito sincera, foi melhor do que a última eleição.

Eu já vou explicar isso melhor, mas sim, o Max Maciel, que é um cara que ele trabalha muito bem as redes, os dois trabalham muito bem as redes, mas o Max Maciel tem um trabalho bem interessante de redes. Até alguém comentou aqui, porque eu tava lendo os comentários, como o Max Maciel tem isso assim, né? Ele é um cara da periferia, ele é um cara que anda de boné o tempo todo, inclusive é o grande mistério é ver o Max Maciel sem o boné. Ele já fez vários vídeos sobre isso, todo dia praticamente tem vídeo novo no Instagram dele. E ele tá ali trabalhando com isso assim, né?

Tipo, trabalhando fora as outras pautas. O Max Maciel foi o cara responsável por conseguir fazer com que a gente não tenha... que o ônibus seja de graça nos domingos e feriados em Brasília. E foi uma luta muito forte dele, enfim. Fábio Félix... o Max Maciel é um cara negro. O Fábio Félix é gay e também foi um dos mais votados. Então, assim, a gente tem esses exemplos que eu sei que aconteceram em todos os estados praticamente. Isso não foi um exemplo só daqui de Brasília, mas tem essa influência da internet. Daí eu quero indicar um perfil pra vocês, que é uma pessoa que eu sou muito fã, que é o Hawk, o Hawk.

Não sei se vocês conhecem o Hawk. É o hawk.jpg, H-A-W-K. Ele faz também vídeos. Eu acompanho ele há muito tempo, quando ele começou a fazer vídeo no YouTube e os vídeos dele são todos maravilhosos. E ele fez uma análise, porque ele trabalhou com isso, trabalhou com análise de rede e ele fez uma análise muito interessante falando isso. Não é que a internet é o principal, mas a internet não tá separada e quem não teve, não tem presença online, não se elegeu. Então, por que isso? É o que o João tava falando. A campanha do Jones, eu tenho um ranço muito forte de quem fala: "Ai, porque a esquerda tem que saber ir para as ruas." Eu falo: "Cara, é porque cê não anda nas ruas, né?" Porque eu vejo esquerda nas ruas em tudo que é canto.

Eu vejo esquerda nas ruas nos bairros mais periféricos da cidade. Ah, mas não é essa presença gigante da direita. Não é, porque a gente não tem esse dinheiro. Mas eu vejo, sim, esquerda fazendo trabalho nas ruas. Só que se o Jones só tivesse feito o trabalho das ruas, ele não tinha conseguido também essa votação. Precisa ser as duas coisas. Infelizmente, não dá mais pra fazer só um lado. O que é péssimo, mas enfim, estamos aí, né? Estamos aí sendo... Tem vários empregos.

João

...dando outro exemplo, a Anelisa, que foi a segunda mais votada de Minas Gerais. Gente, a Anelisa é uma menina, tem 21 anos. A gente podia ser pais dela aqui, tá? A Anelisa, espetacular o trabalho que ela fez. Renato Freitas, cara, ter conseguido o que ele conseguiu, aonde ele conseguiu, é impressionante. Renato é um quadro espetacular, um ser humano espetacular, uma pessoa de uma luta espetacular. Então, assim, a gente tem vários e vários e vários e vários exemplos de uma construção que mostra que é possível. Quando a gente terminou a eleição de 2022, no outro dia de manhã, eu fiz uma live com o Gaiofato. E eu falei uma coisa, tá lá gravado pra quem quiser ver.

Que eu falei: "Cara, a gente tem que errar diferente." Não importa errar, o problema é errar igual. Errar igual é uma insanidade. Cê esperar outro resultado esmurrando a mesma ponta de faca, do mesmo ângulo, do mesmo jeito, é doideira, é loucura. Vamo tentar errar diferente. Pessoal da esquerda que acredita que pode ocupar um espaço da importância desse Parlamento e que vai fazer, faz direito, vai pra ganhar, muda a forma como tá fazendo. Fizeram. Agora a gente vai ter uma coisa maravilhosa que é: a prática é o critério da verdade. Pela primeira vez, em décadas e décadas e nunca dantes na história desse país, né, pra a gente usar uma frase mais clássica, nós vamos ter, de fato, a possibilidade de ter quatro anos de gente mordendo o cachorro.

Uma coisa, cara, é o palanque, e meu Deus, que palanque gigantesco de pessoas como Laura Sabino, Chavoso da USP, Jones Manoel, Caroline Sardá, que agora tá deputada estadual, né, que ela era primeira suplente e tal, conseguiram via redes. Isso é uma coisa. Só que, meu irmão, precisa da Meta apertar um botãozinho pra derrubar o perfil, precisa de fazer uma coisinha pra tirar o alcance todo. Todo dia sim e dia também, a gente vê gente de esquerda tendo perfil tirado, vê gente de esquerda tendo que entrar na Justiça, vê gente de esquerda tendo canal tirado do YouTube, da Meta, do Instagram, do Facebook, do caralho a quatro.

Outra coisa agora, cara. Primeiro: cê vai ter uma estrutura que vai permitir não é só que o Jones, que o Elias, que o Humberto, que a Ana e que outras pessoas vão pra lá. É que mais 10, 15 pessoas vão estar lá e nos estados deles militando profissionalmente, vão ser realmente profissionalizados.

Tupá

Recebendo salário, gente, que é um negócio importante.

João

Vão estar o tempo inteiro recebendo salário, em vez de ter que fazer ou o que a gente faz, de estar fazendo 700 corre ao mesmo tempo, ou o que é muito comum na maioria esmagadora dos militantes e das pessoas que tão em movimentos sociais, das pessoas que tão organizadas, que é cê trabalhar seu dia inteiro e no seu fim de semana, depois do seu trabalho, aonde que dá, levando problema na firma, levando advertência na firma, cê poder ir fazer as coisas que cê tem que fazer. Essa estrutura agora tá sendo permitida e nós vamos ter quatro anos disso e quatro anos de palanque.

Ivan

Mas então deixa eu fazer, deixa eu pegar esse gancho que vocês levantaram. Eu quero pegar esse gancho que vocês levantaram e daí eu pergunto se essa é a versão século 21 do intelectual orgânico.

João

Cara, assim, se a gente for pensar no conceito gramsciano, né, se a gente for pensar no Gramsci, for pensar o que que é o intelectual orgânico, é esse intelectual que ele é forjado na luta, que ele não é necessariamente forjado ali na academia, que ele não é necessariamente preparado para ser um intelectual, mas que a vida dele vai forçando ele nesse despertar político, nas suas lutas, a adquirindo também uma teoria, porque o Lenin tava certíssimo nisso. Não existe boa prática sem boa teoria. Você tem que ter teoria pra ter prática também, porque senão vira só praxismo. E cê não pode ter só teoria, porque senão é academicismo, você fica ali fora do mundo.

Qual que é o grande problema que todos nós que passamos pela universidade, que lutamos por uma universidade diferente, falamos: ninguém tá pouco se fodendo pra extensão, ninguém tá pouco se fodendo em levar a universidade pra ser universitas, pra ser para todos, com todos, no seio do povo, atravessar os muros. Fica todo mundo lá na sua torrezinha de marfim, um batendo punheta para o outro, escrevendo Qualis A1 pra ficar feliz e um sendo... Não mais agora, né, mas durante muito tempo foi.

Tupá

Porque não tem mais Qualis A1, é só por isso.

João

Porque não tem mais Qualis A1, mudou agora nesse último ano, mas assim...

Tupá

E a extensão é obrigatória. Mas eu tenho alguns apontamentos sobre isso, como alguém que saiu há pouco tempo da universidade, da aula na universidade, né?

João

Não, super te entendo e tal.

Tupá

Eu concordo com você, é muito rápido.

João

Sabe, o que eu estou falando é que assim, essas são pessoas...

Ivan

Tá, João, calma. Segura. Tupá, vai. É rápido.

Tupá

É muito rápido. É, mas porque assim, tem uma lei que é pra ter mais extensão, que é não sei o quê, mas eu vou dizer, o pessoal das humanas tá completamente perdido, porque ninguém nunca aprendeu a fazer extensão. E eu... é muito diferente, e eu sei porque eu convivo com... eu tenho muitos amigos professores, essa gente, é muito diferente. O pessoal da Biologia tem uma facilidade maior em fazer extensão, porque eles já trabalham com divulgação científica há muito mais tempo. O pessoal da saúde, nossa, é muito mais fácil fazer extensão. O pessoal da Filosofia e da História, tá todo mundo correndo com a mão para o alto, falando: "Ó, meu Deus, o que que eu faço?

Porque eu não faço ideia de como fazer." De novo, por quê? Porque todo mundo passou, se ferrou pra caramba pra conseguir ser professor, e pra ser professor, você tem que abrir mão de muita coisa pra você ser só acadêmico, e de repente, e eu acho que tá certíssimo a extensão ser obrigatória. Era só pra terminar esse ponto de que a extensão é obrigatória, mas a gente ainda não faz a menor ideia do que fazer com isso.

João

Uhum. E assim, vou te dar um exemplo aqui de História. Desculpe, Ivan, você quer falar?

Ivan

Não, eu ia falar pra você falar. Não, eu agora ia passar. Por favor, pode falar, tá tudo bem.

João

Não, eu vou dar exatamente o exemplo de extensão, tá? Eu tô voltando de novo pela milésima vez para o doutorado e a minha orientadora, ela tá trabalhando com a parte de extensão lá. E o que que ela tá fazendo? Ela tá fazendo seminário com os meninos de extensão, onde ela chama gente que é formado em História, Ciências Sociais, Filosofia, em Letras, ou seja, a galera da humana como um todo, pra gente conversar com eles de outras formas de chegar nas pessoas. Pra gente conversar com eles de como que esse trabalho de divulgação científica pelas Humanas pode ser feito, pode ser feito em rede, pode ser feito em sala de aula, e pode ser feito em cursinho popular, e pode ser feito em vários outros locais, e pode ser feito em bibliotecas populares que são construídas com essas iniciativas.

Então isso é importante demais, Tupá. E a gente vem tateando, e a gente vem tateando, inclusive, pra ensinar para as pessoas ferramental. Ninguém é preparado pra usar o ferramental. [Tupá: Teoria, gente.] Ninguém numa faculdade de Humanas vai ter uma matéria de OBS um e dois, entende? Ninguém vai ter uma matéria de quais tipos de ferramenta que cê usa, como que cê franqueia ferramenta de pesquisa pra gente da escola, como que cê pode ajudar num, como consumir de forma mais crítica os materiais que estão sendo feitos e jogados a rodo, seja em TikTok, seja em Instagram, seja onde que seja, entende? Então assim, isso é importante para um caralho, importante pra um caralho.

E a gente vem tateando nisso, mas é bom ver isso acontecendo. Voltando na questão da, dessa intelectualidade orgânica, né? São intelectuais orgânicos, mas mais do que serem intelectuais orgânicos, são pessoas do povo, são militantes que estão no povo, com o povo, para o povo. O Rick Azevedo, por exemplo, que se elegeu, é o cara que, é óbvio, gente, que o Rick não tava um belo dia em casa e falou: "Pô, caralho, trabalhar seis por um é mó merda, vou fazer alguma coisa a respeito." Sabe? Essa é uma coisa, gente, que já vinha acontecendo com toda a sociedade. Agora, o papel do Rick em capitanear aquilo, que era uma revolta individualizada de muitas pessoas em uma pauta coletiva, esse papel é indelével, entende?

Então assim, esse tipo de coisa é muito importante, muito importante. E chegar a ter esse tipo de gente nesses espaços também. E gente, vamos só lembrar, a tendência, se der muito certo, é recrudescimento e proibição. Se vocês pegarem a última grande constituinte, aonde a gente teve comunistas trabalhando constantemente em parlamentos, década de 30 até 40, termina em 46 com a polaca. A 46 que expulsa todo mundo, tá expulsando Jorge Amado e Marighella, gente. Marighella foi pra luta armada. Marighella é lembrado sempre pela luta armada. O pessoal esquece que ele foi pra luta armada quando ele era avô. Não é que o Marighella foi com o filho pequeno aos quarenta e poucos, o Marighella foi pra luta armada avô.

[Tupá: Ele não tinha-] Marighella-

Tupá

E ele não tinha 17 também ainda, com o cérebro não formado e correndo por aí.

João

Sabe? Então assim, Marighella tava na constituinte de 46, junto com Jorge Amado. Se tem uma lei hoje no Brasil que proíbe discriminação religiosa, agradeçam ao comunista Jorge Amado, a lei é dele. Sabe? Então assim, é, a gente teve essa experiência no passado com uma ocupação, inclusive, muito mais massiva, né? Se a gente for pensar o que que o PCB da década de 30, da década de 40 elegia estadualmente e nacionalmente, não se compara ao que a gente tem hoje. E eu fico até feliz da gente ter começado esse lado, que a gente tá olhando a parte boa primeiro antes de entrar no mar de tristeza, então dá aquele ânimo pra cima.

Ivan

Não, eu não quero nem falar sobre o mar de tristeza. Isso aí já tá todo mundo, não, eu digo-

Tupá

Eu tenho várias colocações sobre o mar de tristeza. [Ivan: Não, é que assim, é-] Que a gente não falar sobre ele.

Ivan

É sim, eu, desculpa te cortar, João, nesse ponto, mas, é, e daí Tupá, obviamente pode me interromper à vontade. Mas, eu acho que um momento, acho que passar esses tempos todos que eu fiquei fora de ficar produzindo conteúdo toda semana, né, e principalmente política e tal, e me focando numa coisa muito específica, que era crimes horríveis que aconteceram e que a gente não sabe qual é. E tendo que lidar com tudo que é tipo de gente de vários espectros políticos e tipo, eu nunca esqueço de eu ligando pro Frederick Wassef e ele me dando uma das melhores entrevistas que eu ganhei na minha vida numa madrugada, sabe?

É- [João: Que momento, né?] Que momento. Né? E assim, e eu ainda feliz porque eu, tipo, caralho, eu tô falando com o Wassef sobre uma coisa que ninguém entende, só eu. Só eu entendo quem é esse cara, que é nesse momento da história que a gente tá conversando, que é ali a década de 90 e tal, que é quando ele tem um mandado de prisão pra ele, porque ele é suspeito de fazer parte da seita satânica que matou crianças em Guaratuba, sabe? E eu sei que ele é inocente. E eu tô falando com ele dizendo assim: "Eu sei que você é inocente." E daí ele falou: "Porra, agora tu é meu amigo", sabe?

Então, esse, passar por essa experiência de ter, e assim, era parte do meu trabalho pra conseguir fazer uma reparação grande de direitos humanos e que, diga-se de passagem, o PT fez uma cagada inacreditável em todos esses casos que eu falei. E isso era uma das coisas que eu sempre falava, assim, o que mais me dói nos casos que eu investiguei, é que toda vez que houve interferência política nesses casos, era sempre da esquerda querendo um punitivismo contra pessoas inocentes. E daí chegava em insanidades. Quem ouviu a quinta temporada do Projeto Humanos, que foi a Altamira, sabe do que eu vou falar. Chegava em momentos insanos em que você tava ouvindo a Damares falando e dizendo: "Eu concordo com a Damares", sabe?

E daí você ficava assim: "Que mundo doido é esse?" Então, passar todo esse tempo fora de uma produção incessante de conteúdo político e tal, pra mim foi bom pra dar uma respirada, pra chegar aqui e quando teve o primeiro turno e o resultado, bateu aquele ruim? Bateu, mas tá longe de ser coisa lá de 2018, em que eu queria ficar deitado na cama olhando pra cima e dizer assim: "Ah, o que que eu vou fazer da minha vida?" E tal. Então, e uma coisa que daí quando você começa a andar por esses, e eu acho que por isso que eu queria entrar, comecei perguntando sobre a questão do, da formação dos intelectuais orgânicos, entre aspas aí, dos produtores de conteúdo político, assim, que tão sendo eleitos principalmente pelo PL, com um milhão, dois milhões de votos e você nunca ouviu falar quem é aquele cara. "Quem que é esse cara?" "É um moleque que faz vídeo no TikTok." Esses caras hoje tavam se divertindo muito vendo vídeos de todos vocês chorando, sabe?

E compartilhando e fazendo lives, dizendo assim: "Ah, vamo ver vídeos de esquerdistas chorando. Olha como é divertido", né? E a gente não pode dar essa munição, né? E assim, por mais que eu sou o eterno derrotista, né, que assim, e sabe o que é pior? Semana passada, faz uma semana, a gente gravou um episódio do AntiCast sobre Black Mirror, em que a gente tava falando sobre o segundo episódio do Black Mirror lá, que é o 15 Milhões de Méritos, que acho que é um dos melhores episódios, né? E daí a gente tava fazendo uma série de discussões e eu, e eu falei lá em certo momento, faz uma semana isso.

Eu falei em certo momento lá, assim, uma coisa do tipo assim: "Uma coisa que me impede de, que eu, que eu não consigo me tornar um revolucionário, é uma, é um sentimento melancólico que eu carrego comigo desde que eu sou criança, de uma total descrença no potencial de melhoria social e tal." E eu falei isso num sentido, e ainda falando assim: "Eu sei que eu estou errado. Eu sei que isso é um pensamento burguês. Eu sei que eu, isso é um pensamento fatalista, que é muito fácil se acomodar. Eu sei de tudo isso e eu tenho que combater." Eu coloquei tudo isso. Só que o corte desse trecho saiu hoje.

Saiu ontem, desculpe. Logo depois da eleição. E assim, foi sem querer, porque já tava tudo agendado. Já tinha feito os cortes, já tinha colocado assim. Foi. Daqui a pouco eu comecei a receber- [Tupá: Tá] ...um monte de mensagem, daí tipo assim: "Para! Vai soltar um vídeo desse hoje?" Daí eu falei: "Mas cara, tipo, é só um vídeo, velho. Tipo assim, não, vai por mim, eu não sou o responsável por causa do resultado das eleições." Então a galera ficou muito chateada comigo. E é doido porque, tipo, cara, é, a minha vontade é de dizer assim: "Cê sabe quem eu sou? O que que eu já fiz?" Assim, que tipo assim, porque assim, eu tô longe de ser o cara que tá sentado no sofá sofrendo com as dores do mundo assistindo HBO, saca?

Tipo assim, não sou esse cara. Mas eu entendo. Desculpa, mas assim, vocês, eu não tô muito a fim de ficar discutindo que tipo: "Ah, que merda, ah, que triste, tal." Acho que não é o momento pra isso. Fala, Tupá.

Tupá

Então, é justamente-- isso pra mim é bem forte, assim, porque desde ontem eu vejo muita gente nessa energia. Na verdade, quase toda a minha bolha, porque a gente vive um pouco nisso, quase toda a minha bolha tá destruída desde ontem. Eu-- quase todo mundo que eu conheço falou: "Eu não consegui dormir" e tals. E daí agora eu vou falar algumas coisas, vou voltar um pouquinho pra a minha própria história, porque eu acho que isso é interessante. [Ivan: Uhum.] Eu tive essa sensação, se pra você foi em 2018, pra mim foi em 2016. Eu-- o dia que eu fiquei deitada na cama chorando sem conseguir levantar, foi o impeachment da Dilma.

Essa sensação pra mim lá atrás foi muito forte. Eu tava no doutorado, eu tava morando fora, eu me senti completamente incapaz de fazer qualquer coisa pra resolver o que tava acontecendo. E eu tinha certeza que dali pra frente era-- dali pra cima era só pra baixo. E eu digo isso não me achando melhor, assim. Eu acho que talvez uma formação de história ajude a gente a ter um pouco essa visão de tipo: "Cara, tá começando e tá indo muito mal." E eu lembro que naquela época eu descobri que eu tinha mais coragem de fazer coisas do que eu imaginava. É, assim, né, assim, eu cheguei a cogitar quando começou o impeachment, quando teve o impeachment mesmo e tal, na época eu cheguei a cogitar formas, eu falei: "Bom, se o país fechar, como que eu consigo entrar clandestinamente pra ajudar na luta armada?" Foi esse meu primeiro pensamento.

Assim-- [Ivan: Jesus] ...responsável? Não muito, mas foi o meu primeiro pensamento. E daí eu comecei a entender muito mais, mas isso, assim, todas as loucuras-- e daí eu conversando com alguns amigos hoje, muita gente tava nesse mesmo sentido. E muita gente me falou: "Ah, em 2016 eu não entendia ainda, eu não prestava atenção nisso ainda. E essa é a primeira vez que eu estou tendo esse baque." E eu acho que-- e é muito louco, porque assim, cá que cê não teve em 2018 também? Mas enfim, eu acho que a gente tem um problema, e aqui eu vou reclamar da esquerda, porque eu fiz isso o dia todo.

E eu sou de esquerda, mas calho, velho, é muito cansativo. A gente tem um problema. Toda eleição, toda a eleição vem o diabo da notícia de: "A direita e o centrão ganharam mais cadeiras no Congresso." Eu falei: "Sempre eles ganharam mais cadeira no Congresso. Qual eleição que a gente ganhou mais cadeira no Congresso?" "Ah, é, não teve." "Ah, porque a gente perdeu a maior parte dos governadores." Eu: "Em algum momento a gente ganhou os governadores? Me diz aí." "Ah, porque o presidente..." Eu: "Quantos presidentes do Brasil? Me diz aí quantos são de esquerda de verdade." Porque essa ideia de que a gente sai ganhando e que o mundo é de esquerda, eu nunca vi, eu nunca vivi.

E daí ontem muita gente me falava assim, tipo: "Ai, mas eu não esperava." Gente, eu também não esperava. Tanto eu não esperava que eu me engajei muito pouco nessa campanha. Mas assim, ao mesmo tempo eu acho muito inocente a gente olhar para o, para o Brasil, para o Brasil, esse lugar aqui, ver os últimos anos e falar: "Não, acho que vai dar primeiro turno", porque tá tudo bem. Ah, e daí eu vejo um monte de gente Pikachu chocado. "Ai, porque o Senado ficou horrível." Gente, desde da última eleição, eu vejo analista falando todo dia: "O projeto do PL é eleger senadores para--" não sei, vocês ouviram isso também, né?

Então assim-- [Ivan: Uhum] ...eu fiquei muito mal-humorada hoje o dia todo, e ontem também eu tava muito mal-humorada com isso, porque eu recebi uma enxurrada de gente na minha cabeça reclamando e falando: "Acabou o Brasil, não tem mais o que fazer. Com um Congresso desses a gente nunca vai ter chance." Eu falei: "Porque a gente tinha muita chance antes, né, gente?" Assim, é, e daí ainda essas pessoas viraram pra mim e falaram: "Ai, você é tão otimista." Eu falei: "Nossa, tô otimista, tô otimista." Não, gente, eu não tô otimista. Quando eu falo que não adianta a gente sair chorando pelos cantos, e tudo bem chorar um dia, tudo bem chorar alguns dias, faz parte, o luto é assim.

E daí agora eu vou falar outra coisa que é meio horrível, mas é verdade. Eu tive-- é mais ou menos a sensação que eu tive quando eu descobri que o meu pai-- meu pai morreu na pandemia. E morreu longe de mim, eu não tive como ver ele, enfim, todos esses caos. E o dia que eu recebi a notícia que o rim dele tava parando de funcionar, foi o dia que eu tive certeza que ele não voltava. E naquele dia eu sentei na minha cama, respirei fundo e falei: "É, agora é pra frente", porque não tem-- que, o que que eu ia fazer, né? O Senado tá aí eleito.

Eu tenho zero chances nesse momento de ir lá e deselegêr o Senado. Então assim, pra mim é muito isso, assim, de eu tenho que continuar.

Ivan

Sim. [João: Ó, vamo--] E tem, e tem que continuar e tem que, né, é, o cenário é esse, não tem o que fazer, cara. Então-- claro, João, vai lá.

João

Cara, é, vamo lá. A Tupá falou de luto. Luto pra nós é verbo, cara. Luto pra nós é verbo e sempre foi e sempre vai ser, independente do que acontecer. [Tupá: É isso.] Se daqui a três semanas o Lula conseguir virar e se eleger, tudo que a gente vai ter é mais quatro anos de preparação até o próximo momento de ascensão do fascismo, e a gente tem que preparar. E os nossos sonhos não cabem em urna, cara. A mudança que a gente precisa de sociedade, ela vai muito além de pililim [trecho incerto] de dois em dois anos num canto ou no outro, né. O Lênin tem uma frase que tem gente que atribui ao Gramsci também, mas eu ainda acredito que essa frase é do Lênin depois que eu vi ela em russo na boca do Lênin, mas pode ser do Gramsci, porque as idades, as datas têm chance de bater, que é o famoso pessimismo da razão e otimismo da vontade.

A gente não é uma criança inocente que acha que a gente vive num panfleto das testemunhas de Jeová. O tigre vai atacar se ele tiver sentado com as pessoas no campo de flor. Né? Mas a gente não pode deixar de lutar, deixar de esperançar e saber que esse luto é verbo, que esse luto é constante. Porque tá ruim pra a gente, beleza. Para os povos originários tá ruim há 520 e tantos anos.

Tupá

João, esse foi o argumento que eu usei muito hoje. Eu falei: "Se eles não desistiram em 500 e tantos anos, quem sou eu?"

João

Cê entendeu? Enquanto tem bambu, tem flecha, gente, sabe? Enquanto tem bambu, tem flecha. O Ivan tava falando e eu tava lembrando da frase que é o lema do Partido Comunista do México: "Que a injustiça não te entristeça, que ela te radicalize." Radicalizar no sentido de raiz, de buscar a raiz dos problemas. Que você não desesperança. E pra a gente não desesperançar, a gente tem que ter rede. Por que que a luta é uma luta coletiva? Por que que a gente fala de organização? Por que que a gente fala de coletividade? Porque é o que a gente tem. A gente não tem dinheiro, a gente não tem o monopólio da violência estatal.

Quisera eu ter o monopólio da violência, eu usaria ele maravilhosamente bem.

Tupá

É, eu já tive várias ideias dessas também. Já pensei nisso.

João

A gente tem número. Mas a gente precisa de despertar esse número pra que esse número aja junto, aja coletivamente. Sabe por quê, gente? O rico, a pessoa que está no top 0,01% da sociedade-- porque não adianta achar que os Bolsonaros vão governar pra 1% mais rico, porque não vão. 1% mais rico hoje em dia no Brasil é qualquer pessoa que tenha uma quantidade de bens, não necessariamente de dinheiro, mas de bens somados que passe de 2,2 milhões. Esse tipo de gente pode ser um professor universitário em final de carreira, um funcionário público, um casal que ganha melhorzinho, um dono de padaria. Não é o tipo de gente que vai se beneficiar com a diminuição de imposto de jet ski de luxo.

Eles tão governando não é para o top 0, é para o top 0,01%. As primeiras pessoas que infelizmente vão sofrer muito com a vitória do Bolsonaro é o grosso das pessoas que os elegeram. Isso significa não que a gente tenha que ter raiva do povo ou culpar o povo, mas que a gente tem que estar no povo, com o povo, para o povo. Porque se for pra ter mudança no futuro, essa mudança vai se dar de uma construção coletiva. É uma dívida que a gente tem com quem militou uma vida inteira e morreu antes da gente, é uma dívida com quem tá lutando do nosso lado, é uma dívida futura com quem não nasceu ainda.

Tem um livro muito bonito que chama "Como eu derrotei o fascismo com o poder do amor". Eu quero ler o capítulo um. Capítulo um: O poder do amor. O primeiro passo na minha jornada foi perceber que é impossível derrotar o fascismo com o poder do amor. Capítulo dois: O poder da violência absurda. Que é a gente tem que organizar o ódio. Tá?

Ivan

Pera aí, João, que a Tupá quer falar agora.

João

Tem que organizar o ódio. É isso. Vai lá.

Ivan

Excelente. Fala.

Tupá

É muito... uma coisa rápida assim, né? É isso, a gente tem que entender, né, essa ideia de que: "Ah, eu vi muita gente também..." É porque eu postei algumas coisas ontem e hoje, que uma delas foi: "Hoje eu escolhi não desistir." E daí muita gente me falou: "Eu não sei como que eu escolho. Ah, eu não tenho como não desistir, tal. Ah, eu tô triste, eu tô... eu não consegui nem comer." Eu falei: "Então, vai comer, porque isso é não desistir." Quando eu falo "eu escolhi não desistir", não é que eu saí hoje na rua. Mas se eu tivesse saído, tava tudo bem também. Mas assim, as pessoas têm que entender que não desistir não é você sair amanhã com um monte de camiseta do PT fazendo campanha.

Não é só isso. Aí alguém me falou: "Tô exausto, não consegui comer, tô passando mal, tenho coisa de trabalho pra terminar." Eu falei: "Cara, se mantém vivo até o próximo turno, cê já tá não desistindo." É claro que isso não vai mudar a eleição, mas a gente tem que se fortalecer nas pequenas coisas. E o poder do amor. Enfim, a gente precisa de rede, e precisa de rede ao vivo. E é por isso que é importante essa rede ao vivo. Muita coisa... muita gente também perguntou: "Ai, mas que que a gente vai fazer com o Senado?" Eu falei: "Vai pra rua, gente. Vai pressionar os caras." "Ah, mas e se não der certo?" A gente continua indo pra rua e pressionando os caras. "Ah, eu não tenho força pra ir sempre." Tudo bem, vai uma vez.

Faz... prepara a marmita da outra pessoa que tá indo, sabe? Tem muitas formas da gente... a gente não precisa achar que só... E eu falo isso porque isso foi uma insegurança minha por muito tempo, assim, do tipo: "Ah, eu não tô na batalha no campo de frente do mesmo jeito que tal pessoa, então o que eu tô fazendo não vale a pena, o que eu tô fazendo não é o suficiente. Olha tal pessoa que desistiu de tudo pra militar 24 horas por dia e eu aqui querendo ser professora universitária." Enfim, e a gente tem que entender que todas essas formas articulam, só que o que não dá é ficar em casa chorando no sofá.

Dá por uns dias, tá? Também pode chorar um pouquinho.

Ivan

Tá liberado, tá liberado. Um pouquinho. [Tupá: Tá liberado chorar, gente.] Só não posta isso, saca? É privado. Show.

João

Ó, não podia concordar mais com o dono da Tupá, com o dono da Tupá, gente. Outra coisa, cara, que a gente tem que entender que a partir do momento que a gente tem redes, né? E tem muita gente nas redes que tá falando da sua vida, que é militante, que é propagandista, como eu sou propagandista. A gente tem grandes teóricos no nosso campo, a gente tem grandes debatedores no nosso campo. Ninguém precisa ser todo mundo, gente. É exatamente por isso que a luta é coletiva. Às vezes o sujeito vira pra mim e fala assim: "João, eu não sei o que que eu vou militar, que eu sou contador." Meu irmão, matemática não é o forte da galera aqui, tá?

[Tupá: Não.] Você que é contador, ajuda um partido, ajuda uma organização, ajuda um grupo social perto de você a organizar essas finanças. "Ah, João, eu sou engenheiro, como que eu vou ajudar?" Tem ocupação no Brasil inteiro. Ajuda a galera da ocupação, os bagulho tão caindo, os fio tão desencapado. Você vai ter uma noção que a pessoa não vai ter. Existe trabalho pra todo mundo. "João, eu trabalho 200 horas por dia, tenho filho, tenho não sei o quê, tal." Você tem uma condição um pouquinho melhor, cara? Dá uma grana pra quem tá precisando. Ajuda uma cozinha solidária a comprar um bagulho. Ajuda um pessoal que é ribeirinho, tem um grupo que tá precisando de fazer não sei o quê.

Tem forma pra caralho. "Ah, mas e o meu trabalho, aí não sei o quê." Você tá no seu sindicato. Quando tem reunião de orçamento participativo no seu bairro, você vai. Porque às vezes a pessoa fala, não vai na reunião de condomínio que ela tá, entende? Então assim, é política, gente. Não é eu ir lá de dois em dois anos, apertar três números, fiz pirilim, não. É no dia a dia, é nas coisas, é conversar com as pessoas. Conversa. Expõe, acolhe, ajuda da forma que dá. Se você puder militar, melhor, cara, melhor. Mas se você não puder, faça o que tiver no seu alcance hoje, da forma que te for possível.

Tem espaço pra todo mundo. Nem todo mundo tem que ser eu dando a cara a tapa e entrando na lista do Guedes e lista disso, e Abin Paralela e não sei o quê. [Tupá: Teor, né?] Não precisa, não precisa. Até porque se todo mundo tiver fazendo a mesma coisa, vai faltar um tanto de trabalho pra ser feito, porque ninguém consegue fazer todos. [Tupá: É.] Se você pode uma vez por mês ir numa periferia da cidade, num cursinho popular e dar uma aula da matéria que cê é bom naquilo, você já vai ajudar pra caralho, de um jeito que você não tem noção. Porque normalmente onde falta tudo.

[Tupá: É isso.] Falta presença. O melhor que a gente pode dar é o dar de si, sabe? Então assim, tem muitas formas da gente fazer e a gente tem que entender que isso é uma coisa continuada.

Tupá

Não é só pras próximas três semanas.

João

Não é só pelas próximas três semanas. Por quê? Porque quando a gente, por exemplo, nós que somos marxistas. O que que é o marxismo? O marxismo é uma filosofia da práxis. Tese 11ª de Feuerbach: os filósofos já falaram muito sobre o mundo, é preciso mudá-lo. Ou seja, é uma filosofia que precisa de prática. O que te torna marxista não é saber citar de cor o Lênin [trecho incerto]. O que vai te tornar um bom marxista é você praticar o marxismo no seu dia a dia, das formas que cê puder.

Ivan

Só pra lembrar, né? Eu gosto sempre de lembrar, eu não sou o marxista da turma, tá?

João

Não, sim. Mas pode ser.

Tupá

Oficialmente eu também não sou.

Ivan

Posso ser. [João: A porta continua aberta.] Tá, não.

João

Pode. O dia que cê quiser. [Ivan: Ok.] Pode. Estaremos te esperando.

Ivan

Obrigado. Não, tenho grande simpatia, tenho grande simpatia.

João

Mas assim, o que eu tô te falando, cara, assim, seja a mudança que cê espera do mundo também, entende? [Tupá: É.] Porque isso, cara, é o famoso a história. Um maluco empurrando a parede é um maluco empurrando a parede. Cem malucos empurrando a parede são cem malucos empurrando a parede. Mil malucos empurrando a parede, ela cai.

Tupá

Ia falar uma parede grande, aí, mas sim, ela cai.

João

Saca? Então assim, as coisas são impossíveis até se tornarem inevitáveis.

Ivan

Mil pessoas empurrando uma parede de rua, a parede. Agora, realmente fiquei na dúvida.

Tupá

É, eu pensei em várias formas disso acontecer, mas esse não é o foco. Mas assim, é isso, sabe?

João

O jeito correto é um em cima do ombro do outro e só o primeiro empurra a parede enquanto aguenta o peso, tá? Deixar claro. [Tupá: Ah, tá.] Pra organizar quando a gente for fazer isso, tá?

Tupá

Beleza, combinado. Não, e assim, eu tenho uma mãe muito militante, né? A minha mãe, nos últimos anos, virou uma pessoa muito militante. A minha mãe sempre foi uma pessoa muito consciente, mas depois que ela aposentou e tal, ela se envolveu muito mais na militância. Esses tempos... a minha mãe faz um negócio que eu acho incrível e já ouvi muita gente dizendo: "Mas pra quê?" A minha mãe é bordado ativista. Ou seja, ela borda coisas bonitinhas. [João: São maravilhosas.] Políticas. E eu bordo também porque eu até tava, eu tava aqui conversando pensando: "Ai, será que eu consigo levantar rapidinho buscar meu bordado, que eu vou fazendo enquanto converso?" Mas eu bordo também.

Ivan

Pode pegar, tá tudo bem. Se quiser pegar seu bordado. Tá, ok.

Tupá

Mas aí, assim, e muita gente fala: "Cara, por que isso? A militância, o coisa, não é uma pessoa só fazendo tudo, não é uma pessoa só fazendo tudo perfeito, é errando." O João falou, a gente tem que errar de formas diferentes. Então, vamo errar junto. Alguém comentou aqui, pô, é lembrar que chorar junto é melhor. E é mesmo, sabe? Porque quando a gente tá triste, quando a gente tá... É isso que a gente fala de rede, é você ir pro lado dos seus, porque a gente se fortalece. A mamãe foi balançar bandeira, né, foi fazer bandeiraço algumas vezes durante essa eleição. E foi muito bom, que ela tava num lugar aqui perto de Brasília, aqui em Brasília, que é o Varjão, que é uma periferia da cidade, né, e tals.

Ela tava lá com a bandeira do Lula e ela precisava ir embora, ela saiu e do outro lado tinha o pessoal com a bandeira da Celina, que é a pessoa que quase foi eleita governadora. Gente, ela recebeu 59,8% dos votos. Enfim, é. Mas a gente tá no segundo turno. [João: Tá.] E essa foi uma coisa que eu não esperava nessa eleição. De qualquer forma, a senhorinha que tava lá virou pra minha mãe e falou: "Ô fia, balança a bandeira, pegue o dinheiro, não vote nesse homem, não." Aí minha mãe falou: "Não, mas eu voto." Aí diz que a mulher na hora fechou a cara, olhou pra minha mãe e falou: "Comunista!" Aí minha mãe, aí minha mãe disse que olhou e falou: "Obrigada, muito gentil [Ivan: da sua parte.] Boa tarde." E foi embora.

É isso, sim. E a... Mas é tipo, é isso. Balançar a bandeira, eu tava conversando com a minha mãe sobre isso. Ela falou: "Eu vou lá balançar a bandeira, mas eu não sei se isso faz a gente ter algum voto." Eu falei: "Provavelmente não, mas quem já tá convertido precisa de missa, gente. A gente precisa de comunidade. Você vai lá balançar a bandeira, vai um dia na sua cidade balançar uma bandeira, por quê? Porque você vai conhecer gente que tá lutando junto com você vai ganhar energia de saber que você não tá sozinho nesse problema, você vai aprender um pouquinho mais sobre democracia e sobre outras coisas, tal." "Ah, é muito pouco." É melhor o muito pouco do que nada.

Vai lá fazer o muito pouco, gente. Alguém nas minhas... [João: Não, e...] ...nas mensagens falou: "Eu tô organizando um grupo de carona pro dia da eleição, pra tentar ver que ninguém fique sem carona pra ir votar." Eu falei: "Olha aí, pronto, é isso. Eu vou levar mais três pessoas." Ótimo, é isso.

João

Tupá, e tem gente que vai fazer igual essa senhora e vai falar comunista e vai sair... [Tupá: Vai.] ...mas tem gente que vai chegar e vai perguntar por quê? E vai se dar o trabalho de ouvir. [Tupá: Uhum.] Entende? Então assim, [Tupá: é... É isso.] ...é aquela coisa, às vezes o seu tio é fascista mesmo, a sua tia é fascista mesmo e não tem mais salvação, e tudo bem, acontece. Mas nem todo mundo é. [Tupá: Não.] E tem muita gente que entende que tem algo acontecendo que é ruim, que a sociedade tá ruim, que o trabalho tá ruim, que eu não tenho lazer, que eu não tenho diversão, e não entende por quê, e não teve as possibilidades que a gente teve, as pessoas que apareceram na nossa vida, que...

Cara, ninguém nasce comunista e militante, ninguém nasce de esquerda ou de direita. A gente teve diversas pessoas que passaram na nossa vida e que falaram com a gente: "Olha, cê já notou que tal coisa assim? Olha, cê já viu isso aqui?" Ou você conversando e falando: "Pô, isso aqui eu não achei legal, não quero repetir isso que tá acontecendo aqui." Sabe? Então assim, o Thomas Sankara falava que tipo assim: "Pô, se tiver que explicar cinco mil vezes a mesma coisa pros trabalhadores, pro povo, a nossa obrigação é fazer isso sorrindo, porque alguém em algum momento explicou pra gente." Alguém em algum momento descortinou a realidade pra gente, a gente olhou e falou assim: "Caralho, então They Live é um documentário." Sabe?

Então assim, é isso. A gente precisa...

Ivan

Os mais jovens não vão pegar essa referência.

João

Não vão pegar. Eu dei uma referência do Carpenter aqui. [Ivan: Não vai. Complicado.] Tá? Mas assim, a gente tem que entender, cara, que isso é um processo, velho. Mano, eu fui conhecer a esquerda revolucionária porque eu queria fazer uma carteira falsa pra ir ver um show do Ronnie James Dio, cara.

Tupá

Olha aí o mundo sendo muito doido.

João

Saca? Aí me falaram: "Os moleque do estadual central faz." Eu falei: "Opa, tamo indo lá." Aí eu fui lá fazer a carteira. Aí eu fiz a carteira, atrás da carteira tinha umas massa unida na rua com uns bandeirão pica escritos "Imperialistas são tigres de papel". Falei: "Que caralho, irmão, que porra é essa?" Aí falou: "Lê isso aqui."

Tupá

Muito bom. Eu...

Ivan

E o show, e o show foi bom? O show foi bom?

João

O show foi do caralho, cara. O show foi do caralho. [Tupá: Olha que maravilha.] Eu sou muito feliz de ter visto o menino Ronnie James ao vivo. E foi muito bom o show, cara. Foi muito bom o show.

Tupá

Não, e assim, eu venho, eu já venho de um outro, né, assim, eu venho de uma família de esquerda e mais militante. Embora a minha mãe nunca... Eu falo que a minha mãe é bem militante agora, mas durante a ditadura minha mãe morava no mato, era outras histórias, assim. Meu pai é jornalista, então... Era, né? Então ele tava mais na cidade cuidando de outras coisas assim. Ele tinha um amigo que fazia, acho isso maravilhoso, ele fazia umas carteiras de identidade anarquista na época da ditadura. Eu tenho o template dela aqui em algum lugar... [João: Ah, que foda.] ...que eu tenho guardado em algum lugar. E eu acho maravilhoso, porque é uma rebeldia tão pequena.

Ele andava na ditadura, ao invés de andar com uma identidade oficial do governo, ele andava com a carteira de identidade anarquista. Tinha o Azinho, eu acho que é o Ribas [trecho incerto] que fazia isso. E daí era... E tava escrito assim, tipo: "Válido em todo o território nacional, no mundo. A pessoa portadora disso, não sei o que." Era muito boa, assim, a carteira é genial. E daí, tipo, a polícia parava ele entregava essa carteira, e daí ele apanhava, ia preso, enfim, mas ele mantinha. Mas enfim...

Ivan

Não, mas

João

faz parte.

Tupá

...depois de um tempo, é, não, e depois de um tempo, tipo, meio que a polícia, é, era em Curitiba, eu acho isso. Meio que a polícia olhava e falava...

João

Cansou, né? Falaram: "Ah, esse maluco da carteira de novo."

Ivan

Ah, chega.

Tupá

"Tipo, ah, o cara da..." É, ou tipo: "Ah, leva ele pra cadeia, fica uma noite, depois solta", enfim. Tem essas coisas, são pequenas rebeldias assim, né, que eu cresci ouvindo sobre elas. E na eleição de 2018 eu ouvi da minha mãe falando, a gente conversou, a gente conversa muito, a gente é vizinha. Aí ela falou assim, tipo: "Ah, eu não achava que o mundo ia voltar. Eu não achava que eu ia ver isso de novo." E eu sei que uma parcela dos amigos da minha mãe não teve filho ou deixou, ou deixou pra ter filho mais tarde, porque tava vivendo a ditadura e o mundo era horrível.

E hoje a minha mãe me pediu desculpas. Ela falou: "Desculpa por ter te trazido pro mundo." Eu falei: "Tá de boa, tô bem." [Ivan: Ah, tadinha.] "Não me arrependo. Se não tivesse, tava tudo bem também. Mas assim, não precisa pedir desculpa, tamo junto." Ela falou: "Eu realmente achei que taria melhor." Eu falei: "Não, tá de boa, tá tudo certo." Porque é isso. É, infelizmente, eu escolhi nos últimos anos, muito influenciada pelos livros do Ailton Krenak e pelas falas dele, é entender que, cara, a gente tá despencando no precipício, então é melhor fazer um paraquedas colorido e divertido, porque não tem muito o que fazer, sabe?

Só que não fazer seu paraquedas colorido e divertido só vai fazer você cair mais rápido. A única coisa que cê vai ganhar não tendo esperança e não lutando e não sorrindo e não se rebelando nesse sentido, é cair mais rápido, então não vale a pena.

João

Sim. [Ivan: Como diz] a pichação na frente da barreira do Vasco: "Proibido aceleracionismo na frente das crianças, sujeito a paulada assinada firma".

Tupá

É isso. [Ivan: Ó, gente...] É claramente isso que tá escrito.

Ivan

Eu quero, assim, antes, eu queria terminar, eu vou tentar terminar meia-noite pra dar duas horas de programa. Porque esse aqui, assim, eu conheço o AntiCast, faz tempo que eu não faço, mas eu conheço. Se deixar, vai até duas da manhã, tá? E eu queria evitar. Então, assim, duas horinhas acho show. E então eu quero, obviamente, falar sobre o que é mais importante, mas só fazendo um wrap up de tudo. É, galera, não se desesperem, não importa o que acontecer, continue fazendo tuas coisas. O pequeno que você fizer já é bastante. E eu daria um extra aqui, que se você em algum momento da sua vida sentiu vontade de: "Cara, eu queria começar a produzir conteúdo na internet de política.

Eu tenho condição de fazer isso sem sofrer represália por qualquer situação que você esteja." Faça, tá? Hoje eu acho que, assim, é inevitável, é, precisa, a nova geração precisa entender que ela só vai crescer politicamente virando produtor de conteúdo. Acho que, assim, não tem mais como fazer assim. A internet virou o espaço principal de discussão. E não me surpreende que a grande maioria dos jovens deputados e qualquer coisa que tão sendo eleitos sejam de direita, porque geralmente vai ser um pessoal que já vem de uma classe média, que tem uma condição, sabe? Que os pais já são daqueles lados. Então, o Pavanato mesmo, assim, quem lembra dele, a primeira vez a menção que teve, assim: "Nós fomos forjados na guerra", era um menino de, sei lá, 15, 16 anos gritando qualquer coisa do MBL.

O MBL, que é sempre bom lembrar, assim, é que é curioso, porque daí eu comecei a ver uma galera que é muito nova, assim, tipo, que tem, tá nos seus 20 e poucos anos, assim, falando, assim: "Ah, Renan Santos e tal." Eu falando: "Nossa, cara, acho que esse pessoal não sabe da onde que veio o MBL", sabe? Não lembra do que foi lá o Queer Museu 10 anos atrás. Não lembra o que era a relação do MBL com a Atlas. Não lembra, sabe, essas coisas, tipo, o Kim Kataguiri não saiu do nada.

João

Não precisa ir tão longe, né, velho. Os caras chamaram o Curtis Yarvin esse ano, porra. Tá perto.

Ivan

É, não, mas é que, assim, é mais uma questão de tipo, assim, parece que, porra, tá aí um cara, né, que, assim, nossa, é um cara que pensa pelo bem do Brasil e tal. Mano, assim, tipo, sinto muito, não é, não é esse pessoal aí que cê tá pensando, não, tá? Mas eu, só deixando isso claro, que tipo, eu sei que pro pessoal de esquerda é muito mais difícil, mas faça, tá? Faça do seu jeito que você achar mais legal. Seja subversivo do seu jeito possível. Encontra sua voz. "Ah, mas ninguém vai ver." Vai ter gente que vai ver. [Tupá: É isso que é falado.] Vai ter 10 pessoas.

Vai ter 10, 20...

Tupá

10 pessoas é mais que ninguém, gente. Você não precisa ser famoso.

Ivan

E 10 pessoas mais do que ninguém, isso é um ótimo gancho, Tupá, porque eu quero agora que vocês comecem a entender, porque eu quero partir pra análise dos números do segundo turno, que eu acho que é isso que tá todo mundo desesperado. Nunca se tornou tão importante as 10 pessoas que você vai influenciar. Eu tava vendo uma estimativa que era, assim, se você contar por urna, era uma questão de tipo, cinco votos em cada turma mudasse, já virava a eleição. Então, assim, a gente tá apertado nesse ponto, tá? E é inédito, tá? Ano passado já foi muito apertado. Esse ano vai ser mais apertado e tudo indica que os próximos anos serão mais ainda, porque o que que tá acontecendo?

Daí, hoje, o que que foi, qual que foi meu trabalho hoje? Né? Hoje eu peguei aqui uma das ferramentas de IA que eu tenho, liguei ela na API do TSE e falei: "Puxa", daí fui puxando dado, assim. Eu quero, tá, dá, vamo tabela e cruza tabela e vamo lá e vamo, faz análise. E daí eu passava isso pra uma galera, assim, que fazia as análises legais. Já quero deixar aqui a dica do perfil do Gabriel Marcondes. Deixa eu pegar o arroba dele certinho pra vocês. Gabriel Marcondes, que foi um cara que eu tive o prazer de conhecer e quero chamar ele pra conversar aqui no AntiCast, se duvidar, essa semana ou semana que vem.

É, no Instagram é Gabriel Marcondes, tudo junto, CP, tá? [João: Com F ou com V?] É, que é com S, tá? Gabriel Marcondes CP, é de cientista político. E ele tá fazendo aí uma série de levantamentos. Ele também tá fazendo uma série de análises. E daí eu disse, assim: "Gabriel, pega essas tabelas que eu fiz aqui. Eu tenho essas perguntas", e tipo, vai lá. Quais que são as perguntas? E daí agora eu vou ficar falando um pouquinho, porque eu quero só estabelecer algumas questões pra vocês verem, tá? É, alguns dados gerais. Eu peguei, na verdade, eu comecei a análise com base em 2018, só que 2018 eu acho que foi muito sui generis por várias situações.

Era o Haddad, Lula tava preso, era pós-Lava Jato, tinha uma série de, primeira eleição do Bolsonaro. E daí eu vou fazer algumas questões aqui que eu só quero que vocês entendam pra, qual que era a minha grande dúvida hoje, que era a dúvida que todo mundo, então eu só tô tentando verbalizar a dúvida que muita gente teve, tá? Tô tentando transformar em palavras a grande dor que muita gente teve no dia de ontem e hoje. Então, olha só, em 2022, nós tínhamos, eu vou arredondar os números pra não ficar muito chato, tá? Mas nós tínhamos 150 mil eleitores que estavam aptos pra votar. E no primeiro turno, votaram 57 mil no Lula.

De votos totais, eu não vou falar de votos válidos, vou falar de votos totais. 36%, 36 e meio por cento, mais ou menos, tá? Em 2026, nós temos 158 milhões, 2 milhões a mais, arredondando. E o Lula teve 53,8 milhões de votos, 33,94, 34%. Ele caiu 2,5%, um pouco menos, 2,6, 2,7. Ou seja, em quatro anos a gente teve um aumento de um pouco mais de 2 milhões no eleitorado apto e o PT perdeu 3,4 milhões de votos totais. Por que que isso assusta e preocupa num primeiro momento? Porque você tem, se aumenta o eleitorado, a tendência natural, né, se as coisas não mudassem, a política fosse imutável, etc, se as coisas tivessem no mesmo fluxo que estava, que nunca está, mas enfim, você teria um aumento nos dois lados, em todos os lados, né, proporcional.

Só que não foi isso que aconteceu. Lula perdeu, ou o eleitorado aumentou e o Lula perdeu votos. Se a eleição de 2022 acontecesse hoje, com o atual cenário do ânimo da população, o Lula teria, olha só, se ele teve 57 milhões de votos, ele teria 53 milhões. Ou seja, ele teria 4 milhões a menos de votos. Essa queda corresponde a mais ou menos 7%. O que que eu quero dizer com todos esses números? Que com o eleitorado atual e a proporção do apoio de 2022, o Lula teria aproximadamente 58 milhões de votos, ou seja, comparado aos votos do primeiro turno, ele está com 4,2 milhões abaixo desse patamar.

Pra fins de comparação, o Flávio Bolsonaro, nesse primeiro turno, teve 56 milhões de votos. Eu sei que eu tô falando um monte de número, já já vai ficar claro. Ou seja, ele teve, o Flávio Bolsonaro teve 56 milhões de votos, ou seja, no cenário de 22, e imaginando que o Flávio tivesse resultados de ontem, o Lula estaria com 2 milhões à frente. Ou seja, se fosse o Lula de 2022 contra o Flávio agora, o Lula estaria só com 2 milhões de votos à frente. Em 2022, no primeiro turno, o Lula tava com 6 milhões à frente, três vezes a mais. É esse o ponto que eu queria chegar.

E na época, 2022, qual que era a questão? Dizia assim: "Caralho, como tá apertada essa eleição". No primeiro turno já se falava. Dizia: "Cara, 6 milhões não é eleição ganha, não é eleição ganha". Todo mundo falava isso. Então todo mundo lembra naquela reta final assim da apuração, todo mundo desesperado, tipo: "Ah, meu Deus do céu!". Então, qual que é o ponto? O cenário político no Brasil, ele é de extrema polarização e o que que era a minha hipótese, que daí eu fui pedir para o Gabriel dar uma analisada, né, e passar a impressão dele, era, quer dizer, de extrema polarização, que praticamente não há mais o eleitor do centro que se movimenta e que é disputado pelos candidatos.

Porque qual que era a questão, que que era uma eleição normal alguns anos atrás? Você tinha os clássicos 33, 35% PT, tinha os clássicos 35 a 40% PSDB, e você tinha uma meiuca ali. E cê tinha uma meiuca ali, sabe, que dava pra você meio que disputar. Então era, cara, era 20% eleitorado, você conseguia meio que tipo mexer naquela turma. Isso não, a sensação que dá é que isso não existe mais e que tá radicalizando tudo, que a gente tá chegando quase no cenário dos Estados Unidos, assim, que só tem dois partidos, né? É o PT e o PL, no caso aqui, assim, né? Então, claro que não é exatamente assim, você, especialmente em políticas municipais, estaduais, o cenário é muito diferente, né, mas falando isso no nacional.

Então, as dúvidas que eu tinha colocado aqui pra várias pessoas pra quem eu mandei esses dados aqui, e foi o Gabriel um dos que me respondeu, se cê contar, porque essa era a minha grande dúvida que eu acho que vocês, muitos também tinham. O que que acontece? Se cê contar quantos votos o Lula teve em 22 e quanto ele teve em 26, ele teve menos votos no primeiro turno. É isso que deixou todo mundo assustado, porque tipo, não tinha um outro candidato de esquerda pra ele votar, não tinha um candidato de centro-direita moderado pra ele votar. Cara, esses votos que votaram no Lula no primeiro turno, eu não tô falando do segundo turno, eu tô falando do primeiro turno do Lula.

No primeiro turno, o Lula, tipo, tinha que ter, em teoria, não tem por que mudar. Esse cara, ele não iria para o Flávio. É muito difícil imaginar uma pessoa que falou que assim: "Não vou votar no, não vou votar no Bolsonaro, mas vou achar que o Flávio é uma boa ideia agora". É muito difícil. Pode acontecer? Pode. Com certeza tem alguém no chat ou que tá ouvindo, que conhece alguém que fez isso, eu sei, tá? Mas então o que aconteceu com os 3 milhões de votos diretos que o Lula recebeu a mais em 2022? Eles foram para o Flávio, essas pessoas morreram, não foram votar?

O que aconteceu? O Gabriel, com quem eu conversei, ele falou: "Ivan, a abstenção tá muito alta, tem muito branco e nulo, que são pessoas que eram de centro e que não tão se sentindo à vontade pra votar". Eu, só que assim, eu não tive tempo de conversar com o Gabriel ainda, mas quando daí eu, daí eu peguei as minhas tabelas aqui de votos brancos, nulos e abstenções, pra mim a conta ainda não fecha, ainda não tá fechando. Eu não consigo ler isso aqui ainda, e de novo, a gente tá ainda no calor do momento tentando entender ainda, mas eu não estou comprando muito que o problema é a abstenção.

Eu acho que rolou, vocês lembram de 2018, que a gente dizia que tinha um fenômeno muito doido que era do voto Lula-Bolsonaro, que era o cara que assim: "Se eu não posso votar no Lula, eu vou votar no Bolsonaro". E essa lógica tinha um, tipo assim, eu não reconheço o Haddad como um cara que me representa tão bem quanto o Lula. Então depois do Lula, quem mais me representa é o Bolsonaro. Se o Lula concorrer, daí eu voto. Então assim, era muito doido esse 2018. Só que eu não vejo o Flávio ser essa figura aglutinadora também, então não tô entendendo. Então por que que o Lula não foi capaz de chegar em 58 milhões de votos, que corresponderia à mesma proporção de 2022?

Essa deveria ser a votação do Lula pra ele manter a mesma performance de 22, e não teve. Eu comecei a ter a suspeita que talvez o Lula tivesse algum ralo, ou seja, que tem alguma região do país que estaria puxando pra baixo o Lula. E eu não encontrei esse ralo em específico, mas teve algumas coisas curiosas. Eu comecei a pegar os dados do TSE e pedi para fazer aglutinações de aglomerados de cidade em raios de 150 quilômetros pra tentar encontrar mais ou menos os maiores ralos onde o Lula perdeu comparado 2022 e 26. Daí, cara, tem umas coisas muito curiosas assim. É, você vai ver, por exemplo, que se você pegar um aglomerado de São Paulo e o entorno, você vai numa aglutinação de 150, 145, 245 municípios, perdão.

Você junta aquele entorno de São Paulo, o Lula perde 720 mil votos. Daí se você junta com os aglutinados de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Goiânia, ó, tudo grande capital. Ribeirão Preto, que daí é ali perto, e Curitiba e Salvador. Se cê pegar esses oito aglutinados, você tem um total de perda de votos de dois milhões de votos. E lembrando que dois milhões de votos que o Lula perde, estão indo pra alguém, né? Ou seja, quase como se perde, né, se ele tá indo, fosse para o Bolsonaro quando deveria ir para o Lula, ele quase conta como dois, assim. Então, o meu ponto aqui todo é que tá tão pulverizado o lance.

E daí eu queria, ah, não, daí eu tenho que fazer aqui, eu tava vendo essas coisas que eu precisava dizer. Eu queria dar meus parabéns para as seguintes cidades: é, Brasília, tá de parabéns, né? [Tupá: Surpreendente.] Surpreendente, aumentou muito o número de votos para o Lula. Macapá, Maricá. Maricá, hein? Lembra Maricá? Que tinha todos aqueles problemas? Então tá bom. Maceió, Niterói, Recife aumentou, Sobral, grande Sobral. Agora, as que eu achei mais divertidas são: Flores de Goiás, em Goiás. [Tupá: Ah, já fui lá.] Que tem uma população estimada em 2026 de 14 mil pessoas. Sabe quantos votos o Lula perdeu em Flores de Goiás? Zero. Sabe quantos que ele ganhou?

Zero. Flores de Goiás se manteve com 644 votos para o Lula em 22 e 26. Então assim, eles tão de parabéns pela coerência. Alhandra, na Paraíba, 1578 votos para o Lula em 22 e 26. E em terceiro lugar, Bonsucesso, na Paraíba também, com, ah, perdão, eu estou falando, falei errado aqui os nomes. Assim, a diferença de votos é tudo igual. Não, o voto de Lula, 3000. Foram 3000 em Bonsucesso, Alhandra foi 8000 e Flores de Goiás foi 2000. Eu errei, ali eu tava falando, eu tava lendo a diferença de população. Então assim, são interessantes essas cidades assim que tipo, não aumentou, não diminuiu. Essas três cidades foram as únicas do Brasil que tipo, se mantiveram.

Olha só quantas cidades que o Lula perdeu. Foram 4560, e que ele ganhou foi 1007. O resto é tudo Flávio Bolsonaro. Então é muito, é muito pulverizado. O fato de ser pulverizado pode ser desesperador num primeiro momento, mas num segundo momento também eu quero que cê entenda o seguinte, caro ouvinte ou espectador: a pessoa que você conhece que votou no Augusto Cury importa. A pessoa que cê conhece que falou: "Ah, não votei não, preferi ficar em casa dormindo". Daí cê fala assim: "Mano, tipo, bora acordar? Daí a gente vai passear no parque, faz um negócio bem legal, daí cê vai lá e vota. Vota e vamo votar, vamo votar legal?

Assim, saca? Tá?". Tipo, dá. São essas pessoas que estão no teu entorno, que você conhece, que você tem acesso. Você conseguir fazer um voto, você já fez o, já fez demais. Porque eu sei que dá a sensação do: "Ah, meu Deus, é muito difícil virar voto, não sei o quê." [Tupá: São milhões.] "São milhões, eu nunca vou conseguir." Não, ficou na vírgula, isso tá na vírgula, tá? E não pode esquecer que enquanto a gente tá fazendo isso, eles também tão, tá? Então, é uma questão de disputa mesmo. Esse cara, que é o cara que não queria ser incomodado, vai ter que ser incomodado, tá? E é isso.

Só queria falar um monte de número pra parecer inteligente, já falei demais. Então, João, cê leu muito a tabela também hoje?

João

Bastante, cara. Deixa eu só falar alguns dados que eu acho que são interessantes da gente pensar. O primeiro é: por mais que dois milhões e quase trezentos mil votos seja uma diferença gigantesca, o Bolsonaro tirou uma diferença maior do que essa no segundo turno da eleição de 22. Se a gente pega a eleição de 21, o Lula vai terminar o primeiro turno com 57 milhões, duzentos e cinquenta, e o Bolsonaro com 51 milhões e um pouquinho. Ou seja, cê tinha uma diferença superior a seis milhões. Quando cê chega no segundo turno, termina com o Lula com 60 e não dá, quinhentos, e o Bolsonaro com 58 e tanto.

Ou seja, o Bolsonaro teve uma votação no segundo turno das últimas eleições, sete milhões de votos a mais, com a mesma diferença, estando ele do lado da máquina do governo. Que que eu tô dizendo com isso? É a mesma situação, é a mesma coisa, é tudo igual? Não. Mas uma diferença que era muito maior, três vezes maior, se tornou, no fim e ao cabo, uma diferença menor do que foi a do primeiro turno hoje. Então é possível? É possível. Vai acontecer? Aí são outros 500. São outros 500. Qual que pra mim é um grande problema e um grande diferencial dessas duas eleições? Se a gente tinha no primeiro turno da eleição de 2022, em terceiro lugar a Tebet, com quase cinco milhões de votos, em seguida dela, o Ciro Gomes, com três milhões e meio de votos, e aí nós tamo falando numa quantidade de oito milhões de votos.

O que a gente pensa? O cara que votou na Simone Tebet e o cara que votou no Ciro Gomes tem mais possibilidade de votar no Lula do que votar no Bolsonaro, por mais que não tenha sido o que aconteceu de fato na eleição, tá? A gente tem agora em 2026, na sequência, direita e direita e direita de novo. Né? Porque assim, o Augusto Curi entrou porque o Pablo Marçal não pôde entrar, a pedido do Pablo Marçal, Pablo Marçal esse que foi pra dentro da campanha do Flávio ainda durante a campanha. [Tupá: O escritor Augusto Curi.] O escritor Augusto Curi. [Ivan: O escritor Augusto Curi.] Né?

Eu tenho certeza que os médicos ficam muito felizes quando ele escolhe escritor Augusto Curi. [Tupá: Tinha também o veterinário, né?] Menos, né? A gente acreditar, cara, pô, ah, o Caiado hoje em dia tá no PSD, o PSD é do Kassab, o Kassab pode costurar um acordo. Meu irmão, pode costurar o acordo que for, o votante do Caiado não vota no Lula nunca. O votante do Caiado, e aí a gente tem que pensar que o Caiado teve dois e pouco nacional, mas ele tem quase 7% do Centro-Oeste. Centro-Oeste elegeu só senador do PL. Centro-Oeste elegeu a maioria dos governadores do PL. Centro-Oeste foi uma vitória acachapante do Flávio.

Achar que quem votou no Caiado vai votar no Lula é um sonho, uma pantomima pra gente citar o Collor [trecho incerto]. A mesma coisa com o Renan Santos, né? O Renan Santos não teve os seus 40 milhões de votos, por quê? Porque as crianças de oito a 12 anos não puderam votar. Mas mesmo... [Tupá: É muito triste isso.] As crianças um pouco mais velhas que votaram no Renan Santos, Renan Santos, coitado, que disse, e eu cito: "Abro mão da minha juventude pra disputar essa campanha". Eu queria ter essa pachorra, porque eu sou mais velho que o Renan, né? Eu não tenho, né, assim, eu queria ter essa pachorra.

Tupá

Você ainda tem juventude pra abrir mão, João?

João

Não tenho. O Renan ainda tem, coitado. Enfim, é muito difícil de acreditar que quem votou no Renan Santos vai falar: "Não, porra, agora é nine, agora é lugar o Lula pra presidente da Suméria".

Ivan

Eu acho que o Renan acho que é disputável. Eu sinto isso, tá? [João: E aí, a gente tem...] Eu acho, eu acho que é conversável.

João

O pessoal do Augusto Curi, eu também acho que é desses o mais disputável dos três, mais disputável do que Renan Santos, mais disputável do que Caiado, mas é o tipo de galera que tem uma tendência maior à abstenção do que tem a fazer qualquer coisa. E inclusive, o escritor Augusto Curi e Renan já falaram que vão se abster, que vão lavar sua mãozinha e tão pouco se fodendo. Aí, gente, o que que sobra? O Ivan tava falando, né, da questão de brancos, nulos e abstenções. A gente teve uma diferença a mais nessa eleição, se a gente somar os três, de um milhão e quase meio, um milhão e trezentos mil, mais ou menos, a mais de brancos e abstenções.

Normalmente, segundo turno tem menos abstenção e menos branco e nulo historicamente do que o primeiro turno. Se a gente pegar a série histórica das eleições brasileiras e for vendo, a gente vai ver que todo segundo turno a diferença não é tão grande assim. A diferença costuma ser na casa, por percentual, mas ainda assim ela é menor nas abstenções, nos brancos e nulos costuma diminuir bem. A gente tem um número grande de brancos e nulos de primeiro turno que dá uma diminuidinha pro segundo turno. É muito mais em cima desse pessoal que tem uma possibilidade real do que do outro, por quê? Porque se a gente somar, vamos colocar aí, né, somando com o Zema dá quase nove milhões de votos, tá?

Que foram os votos de segundo, terceiro, quarto e quinto. Cara, tem que fazer três pra um em quem não se abster. Tem que ir pra cima da abstenção, tem que ir pra cima do nulo e principalmente, cara, o PT institucionalmente tem que fazer algo que ele não fez, que é campanha. [Tupá: Às vezes é bão, né?] Né, às vezes é bão. E aí, cara, assim, eu adoraria que caísse o raio, né, no meio do deserto do Atacama florido, e olha que o Atacama está florindo este outubro.

Tupá

O Atacama já tá uma parte aí encaminhada.

João

Eu queria que esse segundo raio caísse e que o pessoal, cara, sabe, assim, fosse pra cima de verdade, meu irmão. Desculpa o que eu vou falar aqui, eu falei na minha live e vou repetir aqui: a campanha agora tinha que ser pipoco comendo, criança caindo com cabeça estourada de tiro, bandeira dos Estados Unidos sendo colocada no cadáver, falando: "Vão tomar tua família". Galera comendo arroz com farinha e falando: "É isso que acontece quando acabar os programas do governo, que eles vão acabar com todos". Meu irmão, agora é a hora de perder o publicanismo, sabe? Porque a única instituição neste país que acredita em democracinha burguesa e juspositivismo é o PT, cara.

Se o Kelsen tivesse vivo, ele tava rindo do PT, cara, sabe? Então assim, agora tem que acabar o publicanismo e tem que tocar o terror, meu irmão, porque tá perdido agora, perdido por um, perdido por mil, meu irmão. Agora meteu o louco.

Tupá

É isso, assim, acho que, acho que é muito bonito, muito legal a gente analisar os números e eu também passei o dia olhando gráficos e coisas e pensando e vendo aqui. Aí vendo, puta, a abstenção em Brasília foi pouca. Brasília surpreendeu, a gente foi pro segundo turno de governador. Porque assim, Brasília acha que é genial eleger Celina Leão, que tá aí enrolada até a cabeça no master e quase levou de primeiro turno. Então assim, né, a vida é caos. Mas, cara, não adianta a gente ficar olhando número, porque eu tô vendo gente comentando aqui, porque eu tô olhando os comentários, e tem gente comentando aqui: "Já era, o Lula chegou no teto, não tem mais o que fazer, já era, não vou nem tentar".

Não, gente, não é essa... A gente passou o dia, a live inteira aqui falando. Não é essa de: "Ai, eu olhei o gráfico e daí é muita gente. Ah, não existe uma coisa que explique tudo". Não existe mesmo, chama gente. Gente não tem um fator que explica, gente. É óbvio que não vai, a gente não vai... A gente pode encontrar padrões, a gente pode encontrar algumas coisas, mas não tem uma coisa só que explica por que que as pessoas votaram no Bolsonaro. Não tem uma coisa só que explica a abstenção. Não tem como... Mas assim, tem como entender onde gastar sua energia. Então assim, não adianta gastar sua energia no seu parente, no seu tio, no seu irmão, no seu primo, na sua mãe, no seu pai, enfim, que tá lá bebendo detergente.

Essa pessoa não adianta. Não é nela que cê vai gastar sua energia, tá? Agora, você vai gastar sua energia em quem? No seu... No cara que cê conhece que fala: "Ah, tanto faz, não faz diferença", né? Assim, cê vai gastar energia nessa galera. Ah, Tupá: "E se a gente perder?" A gente perdeu, gente. Aí a gente faz o quê? A gente continua. Porque a opção... Qual a outra opção? "Ai, mas eu tô muito triste, porque vai ser horrível. Ai, mas eu achei que ia ser mais fácil". Nunca foi fácil. Sinto lhe informar. Só parece fácil porque, sei lá, não é fácil. É uma porcaria, mas se a gente não acreditar num futuro, se a gente não acreditar que tem possibilidade de melhora, a gente aí não faz nada mesmo.

Aí fica nessa de: "Ai, o Lula chegou no teto. Ai, nunca mais vou conseguir fazer nada. Ai", tipo, ai, cê tá vendo, eu tô... Eu passei o dia resmungando pela casa, vocês não têm noção. Eu passei o dia olhando o gráfico um pouco, mas passei o dia resmungando pela casa. Porque eu tô puta com isso.

Ivan

Todos estamos.

João

Se alguém que estiver nos ouvindo tiver como trazer de volta Zambelli e fazer uma conferência de imprensa pra ela no aeroporto, talvez seja um bom momento, tá? [Ivan: Sim.] E esse seria também um excelente momento pra essa mulher voltar para o país, tá? E dar todo o seu apoio mais público possível.

Ivan

Eu queria fazer também uma outra questão que acho que assustou muita gente e, de novo, não estou querendo trazer assim, tipo: "Não, vocês tão todos errados, eu entendo tudo", muito pelo contrário. Mas que é a tal da história do: "Ah, mas nunca teve virada no segundo turno". Primeiro: também nunca teve presidente não sendo reeleito no Brasil até o ano passado e o Lula quebrou isso, tá? Segundo: nunca tivemos uma eleição tão apertada como essa que estamos tendo agora e também no ano passado. E tem uma tendência, né, que daí se você lê a série histórica, eu imagino que vocês fizeram a mesma coisa que eu, então só estou falando o básico.

Eu estou daí com os números abertos aqui. E se você analisar todas as eleições que tiveram segundo turno no Brasil presidencial, é uma tendência de você ter o primeiro lugar do primeiro turno, ele cresce um pouco e o segundo lugar ele cresce mais. Só que nunca chegou ao ponto de passar, porque a distância no primeiro turno já era muito grande, né? O único momento que isso não aconteceu no Brasil e eu até achei tipo: "Caralho, por que será que aconteceu isso?" Foi 2006, em que o Alckmin conseguiu a proeza de no segundo turno ter menos votos do que no primeiro. Eu não sabia que isso era possível, mas ele conseguiu.

Tá. Tudo é possível. Então, nesse, nessa proporção, daí eu pedi aqui para o Gepeto rodar algumas, várias fórmulas assim pra tipo quais são os cenários de tendências que a gente vê se a gente pegar as eleições que tiveram, né? São sete eleições, quais são as tendências? Daí ele falou o seguinte, ele trouxe aqui cinco resultados diferentes. Se você pegar a mediana das sete eleições que teve segundo turno, o Flávio ganha por 50.39%, Lula 49,6. Tudo vai ser superapertado. É tudo assim. Não vai ter sossego, tá? Se cê pegar a média das sete eleições, Flávio é 51.14, Lula 48,86. Se você fizer uma média sem 2006, que teve aquela aberração, você chega mais ou menos no mesmo número da mediana das sete eleições.

Flávio 50.2, Lula 49.8. Isso se seguisse a série histórica. Só que nós não estamos em tempos normais, né? Então daí vem de cinco cenários, esses três primeiros que eu citei são do tipo se estivéssemos em condições normais de temperatura e pressão. Agora, se você, daí ele traz os últimos dois cenários. Se você pegar a média das três últimas eleições, que são as mais próximas do que a gente vive aqui, nós temos, na média das três últimas eleições, Flávio 49.8, Lula 50.19. Lula ganha. Se ele seguir a tendência da média das últimas três eleições. E se seguir o mesmo coeficiente observado no ano passado, que é mais ou menos o que a gente ainda tá vivendo com algumas questões, né?

Tupá

Ano passado, cê quer dizer eleição passada.

Ivan

É, perdão, eleição passada. Exato, desculpa.

Tupá

Tá de boa, só pra- Estou

Ivan

maluco.

João

Eleição passada presidencial, porque eleição passada foi de dois anos atrás.

Ivan

Exato, eleição presidencial ficamos em 49,3 para o Flávio, Lula 50.7, tá? Então o que que eu quero, qual que é a minha visão otimista nesse momento é primeiro mostrar que numericamente é possível. Explicar que primeiro é numericamente possível que nós tenhamos uma melhora de uma virada. Não é impossível por conta desse cenário único que é uma eleição tão apertada no primeiro turno já e já tão polarizada desde o início, né? Do que o tal do voto útil já foi. Eu ouvi gente falando que tipo: "Ah, já teve muita gente que já foi direto para o Flávio no primeiro turno e daí por isso o Flávio já bateu o teto".

Não acho que tá, mas nem fodendo. Acho que esse, tipo, Caiado, Renan Santos, vai tudo pra ele. Eu acho, de novo, que Renan Santos, principalmente o pessoal mais jovem, que tipo é a primeira eleição, alguma coisa assim, dá pra tentar uma conversa. E é isso, cara. Sim, é no um por um aqui.

João

E, Ivan, posso só te contar um caso que cê vai achar muito engraçado e irônico? [Ivan: Hum.] Cê sabe por que que o Alckmin deu essa desinchada de 2006? Cê lembra? [Ivan: Não lembro.] Vivíamos num tempo, seu Ivan, que televisão era importante. Propaganda na televisão era importante. Ir em debates era considerado sine qua non, inclusive em todos os debates. Não era ir no debate da Globo. É assim, o SBT fez um debate? Tem que ir no debate. Como assim não foi no debate? Que absurdo. E o Lula não foi nos debates do primeiro turno com o Alckmin. E aí o Alckmin ganhou mais votos no primeiro turno, porque as pessoas ficaram revoltadas dele não ter ido nos debates.

E aí no segundo turno ele foi nos debates e o Alckmin teve a oportunidade de falar, e aí foi terrível.

Tupá

É isso. [Ivan: Bons tempos.] Isso é um ponto fundamental, gente.

João

Tá. Então assim, pra a gente tentar entender um pouco de 2006, tem esse ponto que, assim, hoje em dia a gente pensar assim: o sujeito não foi no debate, foi punido por isso. É uma coisa muito descolada da nossa realidade, tá? Mas de fato, o que todo mundo falava em 2006 do Alckmin ter aparecido e depois ter desaparecido, foi isso. Porque primeiro ele falou sozinho contra um cone e depois ele falou contra um ser humano, e aí deu muito ruim. Entendeu?

Ivan

Ok, muito interessante.

Tupá

E assim, eu vi, de novo, eu estou aqui acompanhando os comentários, aí tem um monte de gente aqui de tipo: "Ai, mas mesmo se o Lula ganhar, o governo vai ser um inferno". Vai, gente, mas é menos inferno que se o Lula não ganhar, né? Assim, as opções são essas. Não existe a opção "vai ficar tudo bem". Essa opção não existe. E as pessoas ficam me chamando de otimista, eu não tô sendo, é zero otimismo, não tem opção boa.

João

Assim, gente, de deixar da forma mais clara possível. Agora só sobrou duas coisas: meganazismo e neoliberalismo com pitadas de social-democracia rebaixada.

Tupá

E nazismo. Pitadas de nazismo porque o Congresso vai conseguir. [João: Também. Mas é isso, sabe?] É isso.

João

É isso. [Ivan: Uhum.] Então assim, eu... [Ivan: E lembrando, né, quatro vagas...] Se vocês acharam o governo Lula 3 rebaixado, esperem o Lula 4. Mas assim, apesar dos pesares, é quatro anos a mais pra trabalhar dentro de uma normalidade institucional mínima qualquer, talvez, do que dedo no cu e gritaria.

Tupá

E se o Lula perder?

Ivan

E, desculpa, é que assim, não quero esquecer, eu quero deixar isso muito claro. Gente, são quatro indicações ao STF no próximo mandato, tá? [João: Sim.] Isso pra mim acho que é, de tudo é o mais importante, tá?

João

Como diz o filósofo Homer Simpson, né: "Esse é o pior dia das nossas vidas até hoje."

Ivan

Até hoje. Exato. Diga, Tupá.

Tupá

E assim...

João

Agora não são só quatro indicações ao STF, são quatro indicações ao STF e maioria garantida no Senado pra pedir impeachment de todo e qualquer garantista legal.

Tupá

É isso. Exatamente. E assim, gente, não dá pra, ah, mas gente, se o Lula perder agora, a gente teve quatro anos pra respirar. É isso. E daí a gente vai o quê? Vai enfrentar a extrema-direita, porque é isso que o mundo tá. A AFD tá elegendo na Alemanha. É, o que envolta, os votos, essa coisa de voto a voto, a eleição do Peru ficou por 400 votos por um bom tempo, a diferença entre os dois candidatos a presidente. Ah, o Peru é menor. Quatrocentos votos, gente. Quem resolveu a eleição do Peru foi o pessoal de fora. E foi pra pior, porque eles elegeram o Keiko Fujimori, assim.

Eu nem sei, eu não vou nem comparar Bolsonaro com o Keiko Fujimori, porque é a praga e a praga, sabe? É isso, assim. São contextos diferentes, cada um atrapalhando, é, destruindo o seu próprio país. Mas assim...

João

São dois filhos de genocidas, cê vê que tem muito em comum.

Tupá

Exato. É, não, por isso que eu falei, a praga é a praga, eles tão aqui, ó. Então assim, ah, o Senado tá péssimo. Tá. Mas cê prefere o Senado péssimo sem o Lula? Ah, a Câmara tá péssima. Tá. Mas é isso aí, a gente vai ter que seguir.

João

E assim, pensando estrategicamente pra coisas ruins que vêm depois. Se o Lula se reelege, a gente tem uma chance de ter um pequeno fratricídio dentro da direita em 2030. Por quê? Porque quem vai brigar os espólios não vai ser só o Flávio, vai ter o menino Nikolas também, gente. [Tupá: Ah, verdade.] Aqui em Minas Gerais, o Nikolas fez 27,5% dos votos para deputado federal. É mais de um em cada quatro. Ele tá louco pra abandonar o clã Bolsonaro e ele brilhar. Tanto que ele já não colocou o Carlos, que ele já é brigado com o Carluxo, ele tem as brigas dele com o negócio. Se tiver essa briga, ficam os dois.

Se tiver o Bolsonaro, o Nikolas vai ter que apoiar o Bolsonaro durante um tempo, e aí vai ser Bolsonaro e Nikolas juntos, em vez de Bolsonaro e Nikolas um matando o outro. Torçamos pela briga.

Tupá

Sempre.

Ivan

Uhum. E Tarcísio também, né? Tem Tarcísio ainda. [João: Tarcísio também.] Pra entrar em 30, né? Então, galera, é isso. Então, bora falar com o povo. Eu detesto falar com pessoas, mas né, tamo aí. Então, mas assim, eu acho que assim, é um cenário... Porra, 2018 a gente tava fazendo bolo em rodoviária e o caralho, assim, sabe? Mano, voltamos pro inferno? Vamo pro inferno. Vambora, cara. É isso aí.

João

É isso, já tenho não, vamo buscar humilhação.

Ivan

Exato, cara. Tipo assim, é...

Tupá

Não, e ainda tem uma micro esperança no meu coração, porque eu gosto de ter micro esperanças, do Lula ser eleito e entrar no modo muito doido: "Em meu último mandato, farei as coisas incríveis". Tupá, vai acontecer? Deixa eu sonhar. Deixa eu sonhar, deixa eu ser maluca às vezes. [Ivan: Ele é muito bom mesmo.] Ser maluca às vezes é importante. [Ivan: É muito...] Claro que não vai acontecer.

Ivan

A democracia, a democracia...

João

Imagina que ele tropeça e fica frontalizado e aí ele começa a fazer os bagulhos de esquerda de verdade. Pode acontecer.

Ivan

Volta o Lula. Ele pensa que tá em 89, né? Assim, pô, dava um bom filme esse, né? Assim, tipo... [João: Pô, imagina, cara, volta] é o [João: Adeus Lenin do próprio] Lula, né? Adeus

João

Lula com Lula, contra Lula, né? Então assim, uma mistura de Adeus Lenin e Inception com... [Ivan: Presidente?] O Lula batendo a cabeça e levantando assim: "Opa".

Ivan

É. Eu sou o presidente? Você é o presidente.

João

E vai chegar: "Mas quem é esse conciliador do caralho que tá fazendo essas merdas com o povo brasileiro? Presidente é o senhor".

Ivan

Ai.

Tupá

É isso.

João

Mas por que que eu sou tão velho? Sabe, assim?

Tupá

Quem é essa do meu lado? [Ivan: Olha aí, ó.] É isso, gente.

João

Meu Deus do céu, Marisa se mudou demais. Sabe, tipo, é...

Tupá

O Trump tá aí metendo louco no mundo. . Não tô comparando os dois, mas assim, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Ivan

Exato. É isso.

João

Melhor ainda, Weekend at Bernie's com o Jones Manoel carregando a cadeira de roda do [Ivan: Lula morto e o] Jones tá mandando. Enquanto...

Tupá

Ai. Ai.

Ivan

Bom, é isso. Gente, chega. Já foi demais, já caiu a live, inclusive. Então, queria agradecer João e Tupá, muito obrigado por terem vindo. Espero vê-los aqui de novo pra gente tentar dar esse gás aí de esperança e luta pro pessoal, né, pra quem ficou me xingando no Instagram, quer ver agora, né? Olha aqui, ó o cara esperançoso.

Tupá

Agora xinga tu pai usando o bebê.

Ivan

Olha. Eu também, eu também sei passar mensagem positiva, viu? Só chupa essa manga, né? Então, mas de novo, agradecer vocês sempre, é, eu tenho eterna admiração. A gente não conversa tanto assim por muito tempo, mas é, né, também eu fui pai, né, tem isso. Agora meu filho tem certa autonomia, então já consigo fazer mais coisas. E espero...

João

Eu tenho dois desse em casa, eu te entendo.

Ivan

Eu sei. Inclusive eu lembro bem assim quando a gente ia gravar antigamente, daí cê falava: "Não, já vou gravar, gente". Daí, tipo, passava uma hora, daí cê falava assim: "Não, pô, tô tentando fazer ele dormir aqui, não tô conseguindo". Daí, porra bem, João. [Tupá: Lembro.] Daí eu... Daí toda vez que o meu filho passava por essa, eu dizia assim: "Ah, era isso que o João passava". Então agora cê... Tô entendendo, né? Mas, é, recomendo, muito legal isso também. "Ah, mas Ivan, cê não falou que é a favor da extinção da humanidade, das pessoas não terem mais filho?" Sim, eu sou a favor, mas não significa que eu, que eu vou fazer isso, né?

Inclusive amo muito meu filho e, é, recomendo, inclusive, se cê tem condições.

João

Ah, eu sou comunista natalista. O povo fala assim: "Comunista, não sei o que com criança", eu tenho duas. E agora, filha

Ivan

da puta? Eu sou comunista natalista, [João: entendeu?] Exato. Então, de novo, agradeço por cês terem vindo. Agradeço todo mundo que ficou na live até agora. Apoiem lá o AntiCast. Deixa eu ligar aqui de novo. Apoio.mizanzuk.com, por favor, ajudem o AntiCast a continuar aqui. A gente vai fazer mais papos badernistas, sempre. Queria tá falando de Black Mirror? Queria tá falando de Black Mirror, mas entendo também que, é um momento, né, que a gente tem que justamente se organizar aí de novo, certo? E vai ser um prazer, vai ser um prazer tá aqui enlouquecendo com vocês de novo, tá bom? Beijo, tchau.

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